Entre a carne e o plástico

Escrito por em 30 de junho de 2018

Saiba como a Quantic Dream desenvolveu um bom jogo em (quase) todos os aspectos.

 

Quantic Dream e a trajetória até Detroit

Detroit: Become Human é o mais novo título da Quantic Dream. Sua produção, contou com o diretor de longa data David Cage, e com um time experiente em desenvolver jogos “story telling”. Demorou cerca de cinco anos para ser finalizado e sofreu muitos atrasos. Esse novo projeto tinha como pretexto “tornar a empresa relevante de novo”. Digo tornar relevante porque a Quantic nunca foi levada tão a sério. Não me leve a mal, sou um grande fã do estúdio, só que ele está longe de ser comparado a outros “integrantes” do time Sony, como a Naughty Dog ou a Santa Monica.

Durante o desenvolvimento de Detroit, o estúdio passou por turbulências. Acusações de assédios dentro da empresa fizeram a popularidade cair ainda mais. Juntando isso com o pouco marketing feito pela própria Sony, temos um jogo que foi movido e lançado se baseando nas expectativas.

Depois do mal avaliado Beyond: Two Souls, o estúdio precisava recuperar a fé dos poucos fãs que lhes restavam e lançar algo ao ponto de receber pelo menos uma média “verdinha” no MetaCritic. Mas como inovar mantendo a mesma temática quando o assunto é gameplay e desenvolvimento da história? Será que Detroit estaria fadado a ser mais um jogo mediano da empresa?

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Detroit, o lugar onde tudo começou…

Detroit se passa em 2038, em um futuro onde humanos convivem com androides, que foram criados para substituir várias tarefas cotidianas. Temos três protagonistas, todos androides, que foram muito bem construídos; são eles: Connor, um androide detetive; Marcus, um androide projetado para ser um cuidador e Kara, um androide feito para as tarefas gerais da casa.

Os acontecimentos giram em torno do descontentamento dos humanos ao verem máquinas tirando seus empregos e tornando-se cada vez mais importantes na sociedade. Androides passam a sofrer segregação e preconceito, sendo agredidos e impedidos de frequentarem locais da cidade. Todo esse abuso gerará um processo revolucionário, onde as máquinas lutarão por igualdade e direitos em um mundo preconceituoso, não muito diferente do que vivemos hoje em dia.

Quanto a história, só tenho elogios a fazer. A trama criada é intrigante e te deixa curioso para saber o que irá acontecer. Todo o empenho em criar um ambiente e personagens que se adequassem ao enredo fez com que Detroit não pareça tão distante do mundo em que vivemos, apesar de ser extremamente futurista. Todo o cuidado ao desenvolver o “mapa da história” garante ao jogo muitas possibilidades de situações e finais, fazendo com que o mesmo fique dinâmico e necessite de mais de uma jogada para ser entendido por completo.

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Para se emocionar?

Filmes interativos, jogos “storytelling”, chame como quiser, mas esses jogos procuram sempre dar um toque de emoção à narrativa. Diferente de Heavy Rain, outro jogo da Quantic, Detroit não é um “drama interativo”, está mais para um “filme interativo”. A falta de emoção colocada nas cenas deixa no ar a pergunta se isso foi proposital ou não. A dificuldade dos jogadores de sentirem empatia pelos personagens prejudica a imersão na história, que apesar de boa, não pode mover sozinha um jogo. Todo o contexto e ambiente ajudam para melhor compreensão de tudo, mas não são o suficiente para esboçarem um sentimento emotivo no rosto de quem joga.

Joguei Detroit esperando me emocionar igual me emocionei com tantos outros jogos, mas não fui correspondido e não enxergo isso como algo negativo. Foi uma opção da Quantic focar em uma narrativa séria, que causasse mais reflexões do que emoções.

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Vários caminhos…

Detroit: Become Human conta com um robusto sistema de “mapa de gameplay”. Isso permite a visualização de todos os caminhos possíveis e também os que poderiam ter sido feitos dependendo das escolhas. Essa ferramenta organiza toda a história, tornando os acontecimentos uma linha do tempo que vai se modificando com o avanço do jogador. Detroit tem muitas possibilidades e para cada ação há dezenas de reações que são expressas imediatamente ou no decorrer da trajetória. A variedade de situações é o ponto forte, não deixando o jogo tornar-se repetitivo e garantindo sempre algo novo a ser visto e descoberto.

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Mapa da história no primeiro capítulo do jogo

…mesmo gameplay

Utilizando da mesma mecânica aplicada nos outros jogos da empresa, a gameplay é o ponto negativo do jogo. Apesar de ter evoluído muito, parece que a Quantic não encontrou uma forma de fazer esse estilo de controles funcionar totalmente. Comandos imprecisos, animações travadas e movimentos com o Dualshock 4 desnecessários são alguns exemplos de erros que incomodam em meio às escolhas e cenas de ação. A imprecisão dos comandos passa longe de ser tão prejudicial quanto era em Heavy Rain, por exemplo, mas certamente o fator gameplay deve e terá um maior foco de atenção dos desenvolvedores em futuros projetos.

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Revolução andróide

Toda a questão revolucionária presente no game tem como objetivo a reflexão por parte de quem joga. Em um mundo em que cada vez mais países fecham suas fronteiras e tratam imigrantes com preconceito, a aceitação social torna-se uma tarefa muito difícil. Androides são máquinas, não são aceitos na sociedade e são tratados como lixo, inferiores e submissos.

Não quero julgar decisões e ações de nenhum governo ou população, mas às vezes aprendemos mais com um game do que ouvindo e dando atenção a quem só proclama o ódio.

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Conclusões

Detroit: Become Human é um bom jogo. Tem uma ótima e bem construída história, personagens muito bem estruturados e uma cidade viva e realista, apesar do excessivo futurismo. Peca na gameplay travada e na falta de emoção, que desliga um pouco o jogador da trama do game.

Com todos os seus defeitos e qualidades, Detroit vale a pena ser jogado, não só pela quantidade de tempo e dedicação investidos pela Quantic Dream, mas também pela força que tem representando jogos focados na história, tão escassos atualmente.

Mas, o que realmente falta em Detroit é o brilho. Não é o melhor jogo da empresa e nem o pior, mas não tem e nunca terá um lugar de destaque entre os grandes exclusivos de PlayStation porque não acompanha a qualidade de um God of War ou de um Horizon. A comunidade queria um jogo bom e os desenvolvedores entregaram isso, nada além. A Quantic tem potencial e está voltando aos poucos a utilizá-lo na totalidade.

E você? O que achou do jogo? Deixe seu comentário! 😉

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