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Megalo Box: O Vira-Latas da temporada

Escrito por em 14 de julho de 2018

Verão chega ao Japão trazendo uma nova leva de animes!

Ao final do mês de junho, a temporada de verão chega ao Japão, trazendo com ela uma nova leva de animes e deixando somente saudades da temporada de primavera, mesmo que algumas séries ainda se estendam pelas estações seguintes.

A primavera de 2018, no que diz respeito a anime, fica marcada como uma temporada onde as obras originais, produzidas diretamente para a televisão, foram ofuscadas pelo excesso de séries populares que estrearam no mesmo mês. De cara, algumas das principais continuações do ano estrearam nesta mesma temporada, como Boku no Hero Academia e Shokugeki no Soma, por exemplo.

Além disso, tivemos o retorno de obras já finalizadas através de novas adaptações, como Cutie Honey Universe, GeGeGe no Kitarou e principalmente a nova versão de Captain Tsubasa. Porém, mesmo com a disputa acirrada, um novo anime caiu na boca do povo e arrancou para o topo das séries mais assistidas do Crunchyroll: Megalo Box, anime criado para homenagear os 50 anos do mangá de Ashita no Joe.

O título, “Megalo Box”, é baseado no esporte homônimo presente no mundo da série, uma variante do boxe em que os lutadores utilizam próteses mecânicas em seus braços para se enfrentar nos ringues. Assim como na obra em que se baseia, o boxe é a peça chave que move a história principal e seu protagonista, um jovem adulto que se identifica apenas como Junk Dog, alcunha que usa como nome para participar de lutas ilegais no subterrâneo.

Apesar de seu potencial como lutador, o garoto não tem a oportunidade de enfrentar um verdadeiro adversário, pois o resultado destas lutas é arranjado por seu treinador, Gansaki Nanbu, mas tudo isso muda quando Yuri, o campeão mundial de Megalo Box, encontra Junk Dog e o desafia a enfrenta-lo em Megalonia, o principal campeonato de boxe no universo da série. O anime é produzido pelo estúdio TMS Entretainment.

O legado por trás da obra

Como dito antes, Megalo Box é inspirado no clássico mangá de Ikki Kajiwara e Tetsuya Shiba, Ashita no Joe, publicado de 1968 a 1973 na revista Weekly Shonen Magazine. O mangá também deu origem a duas séries animadas muito aclamadas, uma exibida na década de 70 e outra na década de 80, além de dois filmes animados e um live-action de 2011.

Joe Yabuki – Ashita no Joe

O mangá conta a história de Joe Yabuki, um simples marginal arrogante e violento que se torna um grande boxeador após encontrar Danpei Tange, um ex lutador e treinador que abandonou os ringues e se tornou um alcoólatra. Danpei encontra Joe arrumando briga na periferia onde vive e, após enxergar o potencial do garoto, decide que voltará a ativa e transformará Joe em um campeão.

Resumindo, Ashita no Joe narra o crescimento, social e pessoal, de um indivíduo já excluído pela sociedade, e foi isso que construiu sua importância. O Japão na década de 60 ainda estava em reconstrução pós Segunda Guerra Mundial e cenários como as periferias presentes no mangá eram comuns e aproximaram as grandes massas da obra e de seus personagens. Assim, Joe se tornou um símbolo de luta de classes e até de movimentos estudantis no Japão, fazendo com que o mangá se tornasse uma das obras mais importantes de sua época.

A identidade de Megalo Box

Como é de se esperar, uma obra que é feita com a ideia de homenagear outra deve trabalhar com conceitos similares ou ao menos próximos do material original, e Megalo Box não faz diferente, já que  bebe direto de sua fonte na hora de criar seus personagens e a história que apresenta.

Junk Dog e Joe Yabuki

Porém, mesmo seguindo os mesmos passos de seu antecessor, o anime cria uma identidade própria tanto em seus visuais quanto em sua narrativa. Por ser não apenas inspirado em Ashita no Joe, mas também uma homenagem direta ao aniversário do mangá, Megalo Box acaba preso a boa parte de suas ideias, mas brilha ao reimaginar esses conceitos e transformá-los para acompanhar o novo contexto.

A principal diferença notável é a ambientação em ambas as séries: enquanto Ashita no Joe se passa em um cenário periférico japonês que dialoga diretamente com a realidade de sua época, Megalo Box opta por um “futurismo pé no chão”, que nos apresenta cenas comuns das grandes metrópoles dos dias de hoje, mas extrapola a tecnologia, através das próteses mecânicas utilizadas para combate, e os cenários, trocando uma favela japonesa pelo contraste entre a grande metrópole distante superdesenvolvida e uma terra de ninguém típica de filmes distópicos americanos.

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As personagens, embora peguem emprestado algumas características, recebem novos traços de personalidades que não existiam em Ashita no Joe e que geram um ar de autenticidade a ideias não tão originais. Um bom exemplo disso é a natureza mentirosa e a descrença do técnico Nanbu, de Megalo Box, em contraste a Danpei, assim como a paixão pela luta e ambição de Junk Dog desde o início da obra, diferente de Joe Yabuki. Seus designs também são muito próximos aos de seu predecessor, valendo destacar apenas Junk Dog e seu rival Yuri, cuja aparência contrasta não só entre os mesmos, mas também em comparação com Joe e Rikiishi, os rivais do mangá original.

Comparação do design de Ashita no Joe e Megalo Box. No topo Shiraki Yoko e Shirato Yukiko. Abaixo, os treinadores Danpei Tange e Nanbu Gansaku. À direita, os rivais Rikiishi e Yuri.

Em um panorama geral, Megalo Box faz outra escolha interessante em relação a sua arte. Diferente do padrão estético atual de anime, a série propositalmente “sabota” a si própria propondo uma arte mais grosseira, muito menos polida que a destaca em meio a outras séries da mesma temporada, um efeito muito similar ao de Devilman Crybaby dirigido por Masaki Yuasa, lançado no início deste ano na Netflix.

Essa escolha artística acompanha o contexto da obra e junto com as escolhas de ambientação e design de personagem, reverenciam os grandes clássicos da animação anteriores a produção digital, atraindo muitos fãs cansados do estilo artístico repetitivo da grande maioria dos animes de temporada atualmente.

Arte “grosseira”, mas ainda estilosa de Megalo Box

Quanto ao enredo, o desenrolar dos conflitos é interessante e a história, apesar de se fortalecer em referências, é razoavelmente fechada em si mesma. O personagem principal, Junk Dog, que posteriormente adota o nome Gearless Joe (em alusão óbvia a Joe Yabuki) como representação de sua ambição e característica de luta, é carismático e cativante tanto para o espectador quanto para os personagens e o mundo a sua volta, pois se torna um símbolo para  a sociedade e para aqueles que o rodeiam, assim como na obra original, mas não com o mesmo peso.

O técnico Nanbu e o garoto Sachio, que juntos formam a equipe e grande parte do centro emocional da série tem uma relação interessante com o protagonista e motivações próprias convincentes, assim como o rival Yuri, que funciona como um ótimo objetivo a ser alcançado e um último desafio significativo para Joe.

Para um anime com pouca verba de produção e produtores pouco conhecidos, a direção é surpreendentemente inteligente, a trilha sonora em hip hop é impecável, o ritmo da série é pontual e os diálogos são fortes e bem escritos. As cenas de luta, por outro lado, podem deixar a desejar por conta da animação simples na maioria dos casos, mas ainda se mantém interessantes por sua importância narrativa e principalmente pela música e direção eficientes.

Gearless Joe vs Aragaki

Portanto, apesar de inicialmente se tratar apenas de uma série comemorativa, Megalo Box se mostrou uma releitura digna do peso de Ashita no Joe, ao mesmo tempo que desenvolveu estética e personalidade próprias, capazes de sustentar a obra independentemente do clássico que a originou e rompendo com o padrão criativo atual da indústria. Obviamente, não tem e nunca terá metade da importância de seu antecessor, mas ainda assim, projetos como esse talvez se tornem um “Joe do Amanhã” para novas histórias e devem ser prestigiados.

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