A maior façanha de Dragon Ball em 2024 não foi um soco de Goku nem o grito de Vegeta, mas o momento em que Pan, com cinco anos, voou sozinha diante das câmeras em Dragon Ball Super: Super Hero. Em segundos, o filme avisava que a franquia já não gira apenas em torno da velha dupla: cada lutador ganhou rota própria, e esse rearranjo está fazendo a “nova era” soar mais fresca — e, para muitos fãs de longa data, mais empolgante do que a lendária fase Z.
Trinta anos depois da Saga Cell chegar à TV aberta brasileira, o universo criado por Akira Toriyama descobriu um antídoto para a síndrome de repetição que corroía suas continuações: pluralizar poder e foco. O estúdio, o mangá e o licenciamento perceberam que diversidade de protagonistas rende mais histórias, brinquedos e streaming — e a conta comercial sustenta a ousadia criativa.
Pós-Super Hero: Dragon Ball larga o freio e distribui protagonismo
O pivô dessa virada foi o longa Super Hero, que colocou Piccolo e Gohan na linha de frente e vendeu mais de US$ 100 milhões mundialmente, número que só Super Broly havia alcançado entre os animes da franquia no cinema. A Toei leu o recado. O arco seguinte do mangá — já apelidado de “Super Hero extended cut” — manteve a dupla nos holofotes, ampliou o tempo de tela de Pan e só trouxe Goku e Vegeta nos últimos capítulos, quase como convidados de luxo.
Não é decisão isolada: nos rascunhos adiantados por Toriyama para a série Dragon Ball Daima, os guerreiros serão rejuvenescidos a crianças, garantindo espaço igual para Bulma, Kaioshin e até Mr. Satan numa viagem que mistura aventura e comédia — dois ingredientes que DBZ abandonou em nome da luta incessante. É a franquia testando, em produto premium, o que já funcionou nos videogames Xenoverse: criar equipe rotativa mantém o enredo respirando.
Toriyama usa o mangá para testar rotações de elenco e renovar o combate
No papel, Toyotarō traduz os brainstorms do criador em ritmo mensal e virou laboratório de personagens fora do eixo Saiyajin. A transformação Orange Piccolo, o estado Beast de Gohan e o androide Gamma 2 nasceram ali meses antes de virarem bonecos esgotados na Tamashii Nations. O caso mais sintomático é o vilão Carmine: secundário no filme, virou meme no mangá e já tem mercadoria própria no Japão, algo impensável em 1995, quando só Freeza, Cell ou Buu vendiam.
A engrenagem também afeta a coreografia das lutas. Sem as explosões planetárias infinitas de Goku, o mangá abraçou artes marciais de contato, humor físico e gadgets da Capsule Corp. A técnica Makankōsappō foi refinada com três páginas de anatomia em agosto passado, enquanto Pan treinava cambalhotas ao estilo Jacky Chun. É o mesmo tipo de “detalhismo marcial” que fez o próximo flashback de One Piece ser comparado a um filme de Hong Kong: menos raios de ki, mais impacto no close-up.
Das páginas ao streaming: cronograma ousado
- Março/24: conclusão do arco Super Hero no mangá, com recorde de 1,3 milhão de leituras no app Manga Plus em três dias.
- Julho/24: estreia de Daima no Japão, simultânea à Crunchyroll em 11 idiomas.
- Outubro/24: line-up da Bandai revela linha “Next Warriors”, focada em Pan, Trunks e Goten.
A orquestração garante que cada teste de popularidade no mangá gere produto físico poucos meses depois, prática copiada de Demon Slayer. É ciclo rápido que a era Z, dependente da TV aberta, jamais poderia sonhar.
Indústria vê franquia mais valiosa com múltiplos heróis — e fãs saem ganhando
Executivos da Toei admitem em relatórios de investidores que a “dependência em dois protagonistas” era risco de estagnação. Ao espalhar holofotes, Dragon Ball dribla fadiga e vende para nichos diferentes: Gohan puxa o público que cresceu nos anos 2000, Pan fisga crianças novas, Broly mantém os entusiastas de power-ups, e Goku fica livre para aparições-evento que inflamam os velhos saudosistas.
O resultado é animador: royalties de licensing subiram 11% no ano fiscal 2023/24, mesmo sem série semanal no ar. A própria Shueisha colheu 9% de alta nas vendas de mangás Dragon Ball graças a edições coloridas de arcos recentes. Em paralelo, plataformas como a Crunchyroll reportam que novos assinantes atraídos por Super Hero migraram para outros catálogos shonen, incluindo o retorno do Kyoto Arc de Rurouni Kenshin, mostrando efeito-halo que DBZ nunca proporcionou na mesma escala global.
A conta final é simples: ao destravar trajetórias únicas para cada lutador, Dragon Ball se permitiu envelhecer com graça, algo raro em séries que já passaram dos 40 anos. Hoje, a resposta à pergunta “quem vai salvar a Terra?” já não é automática — e essa incerteza é exatamente o que mantém o ki da franquia mais alto do que na saudosa, mas previsível, era Z.
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