O retorno de Hunter x Hunter prometia abalar o mercado, mas quem sacudiu a Oricon foi One Piece. O primeiro ranking anual completo de 2026 colocou o volume 109 da série de Eiichiro Oda no topo absoluto — 1,28 milhão de cópias físicas em quatro semanas — enquanto o aguardado volume 39 de Yoshihiro Togashi estacionou em 864 mil exemplares.
O tropeço parece pequeno à primeira vista, mas derruba uma narrativa cara ao fandom: a de que a seca de publicações teria criado uma “bomba de demanda” capaz de devolver Hunter x Hunter à liderança automática. A nova fotografia do mercado indica que consistência editorial pesa mais que saudade — e essa constatação vale ouro para as editoras que apostam em hiatos longos como arma de marketing.
Frequência de lançamento virou vantagem competitiva, não detalhe logístico
Desde 2022, a Shueisha vinha revisando a cadência de One Piece, intercalando arcos mais curtos com pausas estratégicas de duas semanas. O resultado foi um fluxo ininterrupto de buzz, coroado pela adaptação live-action da Netflix e por uma ofensiva de produtos licenciados que inclui o plano do animador de transformar próximo flashback num evento cinematográfico. Cada componente reforça o outro: mais capítulos geram mais conversas, que geram mais procura nas livrarias.
Hunter x Hunter, ao contrário, enfrentou 19 meses sem capítulo inédito até a retomada no fim de 2025. A volta trouxe apenas sete novos episódios do arco da sucessão, insuficientes para sustentar a maré de discussões além das duas primeiras semanas. Segundo livrarias de Tóquio, a curva de vendas caiu 47% já no décimo dia, movimento raro para um título de primeira linha. O recado: hiato prolongado não cria retenção automática, cria impaciência.
Marketing cruzado faz diferença — e Togashi joga praticamente sozinho
One Piece desembarca em 2026 com animação contínua, jogo mobile em soft-launch global e participação confirmada em dois parques temáticos. Essa máquina de mídia mantém o mangá no radar de públicos múltiplos. Hunter x Hunter conta apenas com o próprio quadrinho: não há anime novo desde 2014, nem live-action, muito menos game relevante. A consequência é óbvia na prateleira — fã casual compra o que vê na semana, não o que lembra de anos atrás.
Editoras japonesas confidenciam que projetos de spin-off animado para o arco dos príncipes foram engavetados pela complexidade política da trama. A aposta agora é acelerar o volume 40, mas sem sacrificar a saúde de Togashi, que trabalha em regime intermitente devido a problemas crônicos na coluna. A equação ainda passa pelo fator streaming: vitrines como a Crunchyroll priorizam conteúdos recém-produzidos, vide o caso de Rurouni Kenshin, cuja volta semanal puxou a manga original de novo para o top 10 de vendas digitais.
Derrota numérica, vitória de longo fôlego — mas sob nova condição
A boa notícia para Hunter x Hunter é que quase 900 mil cópias em um mês seguem sendo marca de blockbuster. A má é que o patamar mínimo para vencer a Oricon subiu, puxado por um mercado acostumado a entregas constantes. Se a editora quer ver Togashi no pódio novamente, precisará transformar a volta em continuidade, não em evento isolado — algo que o autor já sinalizou ao completar 11 storyboards antes do hiato mais recente.
No fim, o ranking semanal grita o que o mercado sussurra há meses: consistência é a nova hype. Para o leitor, isso significa mais mangá na banca; para os criadores, a pressão de produzir sem desaparecer. Entre a saúde de um gênio e a voracidade de um gigante, a indústria japonesa acaba de escolher o ritmo — e deixou claro que, desta vez, saudade não vale troféu.
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