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Crunchyroll cutuca a Netflix e projeta virar ecossistema completo para fãs de anime

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Quando a diretora de crescimento da Crunchyroll declarou que “assistir na Netflix já não basta para um fã de anime”, a frase soou como provocação — e é. Bastou a executiva subir ao palco do festival South by Southwest para deixar claro que a empresa não se vê mais como um simples canal de exibição, mas como a próxima grande marca de cultura pop global.

O recado atinge em cheio o Brasil, segundo maior mercado da plataforma fora da Ásia, onde o tempo médio de maratona supera cinco horas semanais. Se a Crunchyroll acertar a mão num ecossistema que mistura assinatura, e-commerce, shows e games, ela não só expande receita: empurra rivais como Netflix e Prime Video a repensar sua relação com nichos fanáticos.

Plano vai além do play: merchandising, eventos e mobile game exclusivo

Desde 2021, a Crunchyroll dobrou o número de produtos licenciados na loja própria, com volumes de vendas que já passam dos cem milhões de dólares ao ano, conforme dados internos obtidos pelo portal. A previsão para 2025 é lançar um game mobile inédito baseado em franquia original — primeiro teste de fogo da estratégia de trans-mídia.

O movimento ecoa iniciativas vistas em “Loteria secreta de Persona revela novos visuais” e na ofensiva premium da Riot com a estatueta “Fractured Jinx”, mas com uma diferença crucial: a Crunchyroll controla tanto a vitrine quanto a audiência. Isso significa usar métricas de consumo de episódios para calibrar estoque de action figures, camisas e boxes físicos numa cadência quase em tempo real.

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Por que a Netflix virou alvo nominal na narrativa

No papel, a Netflix ainda possui mais títulos absolutos de anime do que qualquer concorrente ocidental. Porém, 62% desses títulos são licenciados não exclusivos, de acordo com levantamento da Ampere Analysis; passam meses indisponíveis ou chegam sem simulcast. É justamente nesse buraco que a Crunchyroll enfia a faca: o fã quer episódio simultâneo ao Japão, dublagem acelerada e curadoria que a big tech não prioriza.

Executivos ouvidos pelo portal apontam que o churn (cancelamento) de animes na Netflix dobra logo após o fim de temporadas populares como Demon Slayer. A Crunchyroll tenta neutralizar essa janela com maratonas temáticas, passes de cinema e prévias de bastidores. A estratégia lembra a “montanha-russa de Demon Slayer” que só ganhou streaming 14 meses depois, prova de que timing é tudo nesse mercado.

Brasil como laboratório de fidelização de comunidades

Não é coincidência que o primeiro show itinerante da Crunchyroll em 2024 tenha passado por São Paulo antes de Nova York. O país responde por 13% dos minutos transmitidos mundialmente e possui a maior base de cosplayers cadastrados no programa de afiliados da empresa. Ao investir em eventos locais, a plataforma testa formatos exportáveis para praças estratégicas como México e Alemanha.

Além disso, o grupo estuda criar um selo de certificação para lojas físicas parceiras, algo semelhante ao “Gold Partner” da Nintendo, mas focado em mangás e figuras colecionáveis. Caso avance, o varejista ganhará drops exclusivos e acesso a pré-venda de boxes especiais, repetindo a lógica de escassez que impulsionou o sucesso de “Sparks of Tomorrow” fora da Crunchyroll.

Ao transformar consumo episódico em porta de entrada para produtos, experiências e, futuramente, jogos próprios, a Crunchyroll tenta reescrever a hierarquia do streaming de nicho. Se conseguir, o fã brasileiro deixará de perguntar “onde assistir” para perguntar “onde não estou ainda?”. E é exatamente esse tipo de lealdade que nenhuma generalista, nem mesmo a Netflix, conseguiu comprar até agora.

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