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Morte de Akiko Hayashi expõe como ilustradores originais somem dos créditos quando o anime vira fenômeno

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Akiko Hayashi faleceu em Tóquio, aos 81 anos, na madrugada de terça-feira. Pouca gente reconhece o nome à primeira vista, mas foi o traço dela que deu rosto, vassoura e expressão a Kiki — a jovem bruxa que se tornaria ícone planetário no filme do Studio Ghibli em 1989.

Enquanto as redes sociais reverberam homenagens, editores japoneses correm para reimprimir a primeira edição ilustrada de “Kiki’s Delivery Service”. É a prova de que o mercado começa a perceber a ironia: o sucesso global do anime eclipsou justamente a artista que ofereceu a primeira imagem da personagem a Eiko Kadono, autora da série de livros.

Os desenhos que guiaram Hayao Miyazaki, mas sumiram dos créditos internacionais

Quando Kadono entregou o manuscrito de “Majo no Takkyūbin” à Fukuinkan Shoten, em 1985, coube a Hayashi decidir roupas, gestos e a própria silhueta de Kiki. Hayao Miyazaki manteve boa parte dessas escolhas — sobretudo o laço vermelho exagerado e a relação quase orgânica entre a bruxa e sua vassoura — ao transformar a história em longa-metragem.

O problema é que, fora do Japão, a circulação do romance praticamente parou depois da estreia do filme. A contracapa passou a estampar fotogramas do Ghibli, e o nome de Hayashi deslizou para dentro do miolo, em corpo menor. “Muitos leitores acreditam que o estúdio criou tudo do zero”, admite um editor veterano da Kodansha, sob anonimato. O caso ecoa discussões recentes sobre a apropriação visual de criadores originais, como ocorreu com os autores citados na série de reportagens sobre One Piece e Attack on Titan.

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Da prancheta à nuvem: quem vai garantir a sobrevida do acervo analógico?

Hayashi nunca migrou para tablets. Ela mantinha uma rotina quase artesanal: grafite para esboços, tinta acrílica sobre papel algodão e retoques manuais de gouache. Esse material, armazenado em gavetas de madeira, agora será catalogado pela Universidade de Artes de Tóquio, que negocia a digitalização em alta resolução para um banco de imagens público.

A pressa tem motivo financeiro. Editoras japonesas planejam box de luxo que recupere as seis capas originais da série, um movimento semelhante ao que a Amazon fez ao relançar quadrinhos antes de apostar em “Vox Machina”. O impasse é quem arca com limpeza, seguro e transporte das ilustrações, já que parte do acervo foi vendida pela família para galerias independentes no início dos anos 2000.

Se o catálogo sair do papel, Hayashi deve, enfim, receber o mesmo reconhecimento global que o estúdio conquistou há três décadas. A disputa por direitos pode atrasar o processo, mas a morte da ilustradora criou uma janela rara: fãs e colecionadores, que antes mal sabiam quem ela era, agora pressionam livrarias on-line por reimpressões. A resposta do mercado pode definir se outros pioneiros — muitas vezes ofuscados pela explosão de adaptações, como aconteceu recentemente com o revival problemático de um anime clássico na Crunchyroll — terão ou não o mesmo destino.

Hayashi partiu, mas deixou um traço fácil de reconhecer: linhas suaves, sombra mínima e olhos curiosos que miram o horizonte. É a Kiki que antecede qualquer sala de cinema — e, agora, retorna para lembrar que nem toda magia do audiovisual começa na tela.

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