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Dragon Ball Super não estragou Goku — devolveu o herói ao modelo de Toriyama

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Quando Goku confundiu o nome do Deus da Destruição e quase detonou o universo no Torneio do Poder, parte do fandom decretou: “estragaram o protagonista”. O meme viralizou, engoliu timelines e cristalizou a ideia de que Dragon Ball Super reduziu o maior saiyajin da cultura pop a um bobalhão sem peso dramático.

O diagnóstico soa definitivo, mas tropeça num detalhe que faz toda a diferença: a trapalhada de Goku não foi deslize de roteiro, e sim um retorno calculado às raízes cômicas que Akira Toriyama havia perdido de vista em Dragon Ball Z. É essa reaproximação — agora visível no anime, no mangá supervisionado pelo autor e até na prévia de Dragon Ball Daima — que explica por que Super, em vez de arruinar, refinou o personagem para a era do streaming.

Z endureceu Goku; Super devolveu o humor original

A mudança de tom não cai do céu. No mangá publicado entre 1984 e 1995, Toriyama alternava pancadaria e comédia física ao estilo Jackie Chan. O primeiro anime acompanhou esse balanço até a saga do 23.º Torneio de Artes Marciais, quando Dragon Ball Z adotou direção diferente: prolongou lutas, cortou piadas e tratou Goku como salvador estoico. O sucesso global do “Goku adulto e sério” cristalizou uma imagem que o próprio criador jamais planejou manter.

Super, lançado vinte anos depois, rompeu esse filtro. A Toei Animation recebeu storyboards de Toriyama que enfatizavam caretas, lapsos e brincadeiras linguísticas — detalhes quase ilegíveis em certas traduções, mas presentes nos rabiscos do autor. O famoso “Senhor Gohan” que Goku solta no retorno de Freeza não é mero humor raso: é referência a um erro idêntico que ele cometera ainda criança, nas páginas de 1985, quando chamava o Kamehameha de “Kamahama”.

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Para o fã acostumado ao Goku hiperfocado de Z, esse resgate soa como regressão. No olhar de Toriyama, é correção de rota. A própria escala de poder respalda a leitura: o Ultra Instinto, forma mais séria de Super, aparece só quando o humor falha em resolver o conflito, criando contraste deliberado. É o oposto da lógica de Z, onde a solução era sempre “um nível acima”. O desenho, portanto, alinha personagem e mecânica de luta a uma mesma piada recorrente: Goku avança porque não percebe o perigo — e isso nunca foi tão mangá quanto agora.

Virada cômica é peça-chave para manter Dragon Ball global

Há também estratégia de mercado. A franquia soma quatro décadas, precisa falar simultaneamente com quem cresceu nos anos 1990 e com crianças que descobrem anime via algoritmo. O tom saltitante de Super garante vídeos curtos para redes sociais, vende bonecos articulados com expressões cômicas e suaviza a violência para exibição matutina em países que antes só aceitavam cortes. A mesma lógica levou a Warner a remover títulos clássicos de seu catálogo, como mostrou a análise sobre Tom & Jerry, e agora move a Toei a reposicionar Dragon Ball onde houver tela disponível.

O roteiro mais leve também prepara o terreno para Dragon Ball Daima, próximo projeto que trará Goku criança de novo — evidência de que a Toei leu os índices de audiência de Super como sinal verde. A resistência hardcore existe, mas a conta fecha: episódios que misturam piada e pancadaria registraram picos de audiência de 6,1 pontos na TV japonesa, enquanto as sagas de luta ininterrupta desceram a 4,7. Nos bastidores, diretores confirmam que Toriyama pediu “menos câmera lenta dramática e mais caretas”, instrução que já aparece em materiais de pré-produção obtidos pela imprensa japonesa.

A leitura mais justa, portanto, não é se Goku ficou mais bobo ou menos épico, mas quem está no controle. Em Super, Toriyama reassume o volante e devolve ao herói o tempero que havia sido ofuscado pela nostalgia de Dragon Ball Z. O resultado pode surpreender quem esperava um campeão sisudo, mas coloca a franquia num lugar que garante tanto a gargalhada de novos públicos quanto a próxima transformação de cabelo cintilante. E, convenhamos, nada poderia ser mais Dragon Ball que isso.

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