Ryan Cohen não usou meia-palavras diante das câmeras: “jogos em mídia física são totalmente irrelevantes” para o futuro da GameStop, cravou o CEO ao vivo na Bloomberg. A frase, que soaria blasfêmia numa rede criada para vender discos e cartuchos, expõe a guinada silenciosa que já empurrou o software para apenas 12% do faturamento – e turbinou bonecos, camisetas e chaveiros a mais de 50% da receita.
O choque não está no desprezo às caixinhas, mas no timing. Enquanto a Sony ainda vende o PlayStation 5 com leitor de disco e a Microsoft pisa no freio do Xbox físico só em 2024, a maior varejista de games do planeta avisa que prefere virar uma Hot Topic 2.0 do que sangrar com margens de 5% em mídia. A provocação também põe em xeque o mercado de usados, que fez a fortuna da GameStop, mas hoje sofre a mesma pressão que inflaciona moedas virtuais em experiências como Grow It RNG.
Colecionáveis engordam caixa e empurram discos para escanteio
Os números dão sustentação à bravata. Dados internos vistos pela Bloomberg mostram que, há dez anos, metade da receita da GameStop vinha da venda de jogos físicos e outro quarto, de consoles e acessórios. Hoje, bonecos Funko, camisetas licenciadas e réplicas de sabres de luz somam 53% do negócio, com margem bruta acima de 30%. Discos de PlayStation e Xbox rendem menos que a sessão de itens “geek” erguida perto do caixa.
Essa inversão se acelerou em 2023, quando mais de 400 lojas foram fechadas e o e-commerce passou a estocar edições limitadas que nunca tocam uma prateleira. A aposta repete a lógica de escassez que move códigos raros no Roblox – tema que já sacudiu o preço de itens virtuais em BitKaisen. Só que, no mundo físico, a GameStop ainda arca com frete, logística reversa e licenças, custos que o digital neutraliza.
O risco de ficar refém da “economia Funko”
Transformar loja de game em boutique de memorabilia parece solução rápida, mas esconde armadilhas. Entre janeiro e março, a Funko relatou excesso de estoque tão grande que cogitou destruir produtos para liberar armazéns. Se o desejo por bonecos arrefecer — algo plausível diante de uma inflação persistente nos EUA — a GameStop volta a encarar o vácuo deixado pelos discos.
A jogada de Cohen também precisa ser lida pela lupa de Wall Street. O executivo virou herói dos memes traders em 2021, quando as ações da GameStop dispararam 1.700% com a ajuda do Reddit. Mantê-las aquecidas agora depende de mostrar crescimento onde o streaming de jogos ainda não chegou: colecionáveis, PC hardware de nicho e, possivelmente, novos testes com criptoativos após o fiasco dos NFTs em 2022.
Nesse xadrez, o brasileiro entra como peão estratégico. O país é 12º mercado mundial de brinquedos e cultura pop, mas sofre com dólar alto que encarece importados. Se a GameStop enxugar de vez o espaço para mídia física, distribuidoras locais perdem vitrine de lançamento e consumidores ficam mais vulneráveis a ecossistemas fechados — ou recorrem a marketplaces paralelos de usados, onde o disquinho ainda vale ouro.
No fim, a frase “totalmente irrelevante” revela menos desprezo pelos discos e mais urgência de encontrar uma veia de lucro antes que o streaming engula até os consoles. Para quem cresceu trocando cartuchos num balcão da GameStop, a mudança soa como adeus; para Cohen, é apenas a última cartada para manter viva a maior franquia de lojas que, ironicamente, não quer mais vender jogos.
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