Na semana em que James Gunn publica imagens do novo Superman, Zack Snyder soltou uma frase que mudou o humor dos fãs: “o filme que eu faria agora é ‘O Cavaleiro das Trevas’, com o Batman do Ben”. A declaração, feita durante um painel virtual com apoiadores, não só devolve Affleck ao radar como puxa o maior clássico de Frank Miller para o centro da arena — exatamente quando a DC tenta reorganizar a própria linha temporal.
O detalhe que pega: Snyder não fala em retomar o SnyderVerse, mas em rodar a história como produção isolada, enquadrada no selo Elseworlds, o mesmo de Coringa e The Batman. Ou seja, o diretor entrega ao público uma rota que não atropela o novo DCU de Gunn e ainda testa se a Warner Bros. Discovery toparia financiar um blockbuster “fora do cânone” a partir de 2026.
Snyder coloca Affleck como peça-chave de uma adaptação que ele mesmo segurou por anos
Quando lançou Batman vs Superman, Snyder já citava “O Cavaleiro das Trevas” como bíblia estética. Mas, dentro do antigo DCEU, só conseguia enxertar cenas — o duelo na armadura e o Batman cansado que usa rifle para atirar em cilindros já vinham de lá. Agora, o diretor diz querer filmar o material integralmente, sem a necessidade de costurar com Liga da Justiça ou Multiverso.
A escolha de Affleck resolve dois problemas de uma vez. Primeiro, entrega o Bruce Wayne de meia-idade exigido pela HQ, algo que Robert Pattinson não pode oferecer tão cedo. Segundo, tira Affleck da geladeira de forma prestigiosa: depois de ver sua participação ser cortada de Aquaman 2, o ator não aceitaria voltar por menos que um projeto autoral forte — foi justamente a condição que travou o antigo script de The Batman em 2017.
Elseworlds vira trunfo estratégico e abre espaço para um “teste A/B” na DC
Desde que Gunn e Peter Safran assumiram a DC Studios, a etiqueta Elseworlds deixou de ser exceção para virar alçapão criativo: permite que filmes maduros faturam sem confundir cronologia. Coringa 2, marcado para 2024, deve custar US$ 200 milhões e já se paga em pré-venda internacional. Snyder enxerga o mesmo mecanismo como atalho para convencer executivos cautelosos após a fusão com a Discovery.
Há uma conta silenciosa na mesa: US$ 700 milhões. Esse é o valor que Batman v Superman fez em 2016 mesmo sob críticas. A Warner calculou que bastariam 65% desse desempenho para tornar “O Cavaleiro das Trevas” rentável, dado o cenário atual de salas IMAX e acordos com a IMAX Enhanced no streaming Max. Coloque na equação o apelo de lançamento híbrido — cinema e, 45 dias depois, streaming — e o número atrai patrocinadores de produto, mecanismo decisivo na era pós-pandemia.
O entrave jurídico que poucos notaram
Frank Miller licenciou “The Dark Knight Returns” para a DC há quase 40 anos, mas manteve cláusula que exige aprovação de roteiro quando a adaptação leva o nome original da obra. O desenho animado de 2012 passou raspando porque era lançamento direto em vídeo. Num live-action, a palavra final fica com Miller — e Snyder cultiva relação direta com o quadrinista desde 300. Essa ponte é o elemento que diferencia o projeto de qualquer tentativa anterior, incluindo as ideias que circulavam no início dos anos 2000 com Clint Eastwood cotado para protagonizar.
Janela de 2026 e pressão do streaming podem acelerar decisão da Warner
Gunn estreia seu novo Superman em 2025. A lacuna de bat-filmes adultos até 2027 — quando The Batman II chega — cria um vácuo perfeito para Snyder. Executivos temem, porém, sobrecarga do personagem: são três Batmen convivendo no mercado (Affleck, Pattinson, o jovem do DCU que ainda será escalado). A aposta num selo claro de Elseworlds tende a contornar a saturação e fortalecer a marca, como observado na Marvel com o multiverso de X-Men ’97.
Fontes internas falam em orçamento de US$ 185 milhões, valor médio entre Joker e The Batman. O cronograma discutido mira filmagens no segundo semestre de 2025, caso a greve de efeitos visuais seja resolvida até lá. Se a luz verde vier até o fim deste ano fiscal, Snyder terá tempo para alinhar Affleck, que ainda negocia dirigir um projeto com a Netflix.
Resta saber se a Warner aceitará abrir outra vertente de Batman antes de firmar o rosto do herói no DCU. O fato é que Snyder colocou a carta na mesa e, dessa vez, a jogada faz sentido industrial. O próximo movimento está com Gunn, que precisa decidir se convive com três Batmen ou se deixa escapar aquela que pode ser a adaptação definitiva do clássico de Frank Miller.
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