A Netflix divulgou seus painéis de audiência de 2026 e cravou um resultado que poucos analistas previram: Demon Slayer, antes sinônimo de fila em cinema e topo de maratonas, ficou fora do pódio global de animes mais vistos. Quem assumiu a liderança foi Mobile Suit Gundam: Requiem — primeira série do “Universo Zero” que a Sunrise preparou para o cinquentenário da franquia.
A inversão de forças acontece no momento em que Demon Slayer se prepara para o arco final, Infinity Castle, e pressiona a Aniplex a repensar janelas de exibição. Já Gundam, reforçado por direção de Kenji Kamiyama, conquistou 47,3 milhões de horas vistas só nas três primeiras semanas, segundo o ranking interno da plataforma. O movimento sinaliza uma nova disputa: veteranos repaginados contra fenômenos recém-coroado.
Números derrubam o mito de invencibilidade de Demon Slayer
No balanço trimestral, Demon Slayer somou 18,1 milhões de horas com o combo temporadas + longas, atingindo o quinto lugar entre animes. O índice é expressivo, mas representa queda de 42% em relação ao pico registrado em 2024, ano de estreia do arco Swordsmith Village.
Mais que a posição, chama atenção a perda de tração em mercados-chave. Nos Estados Unidos, o título caiu do top 10 geral após apenas quatro dias — em 2022 permanecera por duas semanas. No Brasil, manteve-se entre os 10 mais vistos de animação por seis dias, metade do ciclo anterior. Internamente, executivos atribuem o declínio ao “efeito evento” diluído: a repetição de pré-estreias editadas para cinema esgotou o poder de novidade.
O contraste fica evidente quando se olha para o rival. Gundam: Requiem cravou top 5 geral em 14 países, algo inédito para um anime de mecha na plataforma. O pico veio justamente no Japão, onde a produção superou Demon Slayer em 2,4 vezes na métrica de horas por usuário. O feito quebrou o recorde interno de Demon Slayer: Infinity Castle para número de sessões simultâneas, até então 41 em um único dia nas salas da Toho.
Como o “novo” Gundam seduziu a geração TikTok
A virada não se explica apenas por nostalgia. A Sunrise esvaziou o universo original e vendeu o projeto como porta de entrada zero para quem nunca viu um mecha. Os designs repaginados lembram sneakers de collab e os primeiros episódios apostam em ganchos de 22 minutos, já mirando cortes rápidos para vídeo vertical.
A estratégia de convergência também pesou. Enquanto Demon Slayer concentrou esforços em cinema e streaming, Gundam abriu a campanha com mangá simultâneo, game mobile e drop limitado de Gunpla luminoso — esgotado em três horas. A lógica repete o que exploramos quando o “Universo Zero” foi anunciado: disputar a atenção que hoje flui entre Marvel, Star Wars e K-pop.
Veteranos reformulados ganham espaço; fenômenos recentes procuram fôlego
O êxito de Gundam não é caso isolado. No último ano fiscal, retornos como World Trigger e o renascimento de Hunter × Hunter, detalhado em nosso especial, também aumentaram a média de horas vistas por episódio, superando séries em andamento. A tônica é clara: catálogos buscam marcas já testadas, desde que entreguem roupagem pronta para a timeline.
Para Demon Slayer, o recado chega em hora crítica. O estúdio Ufotable planeja encerrar a saga de Tanjiro em 2027, mas a queda de engajamento pressiona por estreia mais cedo ou por spin-offs que mantenham o nome vivo até lá. Sem ajuste de rota, a série corre risco de repetir o caminho de Attack on Titan, que terminou consagrado, porém sem o mesmo poder de mobilização comercial.
No fim, a maratona de 2026 indica que o apetite do público mudou de “o que é novo” para “como o velho pode surpreender de novo”. Se Demon Slayer não quiser virar peça de museu prematuramente, terá de responder à pergunta que Gundam já colocou em tela: o futuro do anime passa por renovar a própria fundação ou por erguê-la do zero a cada temporada?
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