O calendário interno da Toei Animation para 2026, obtido por distribuidores europeus, aponta algo impensável dez anos atrás: três dos quatro grandes projetos de Dragon Ball previstos para chegar aos cinemas e ao streaming não têm Goku como protagonista. A bola da vez recai sobre Gohan, Broly e até Pan, numa virada que já provoca ajustes em campanhas de licenciamento ao redor do planeta.
O reposicionamento sacramenta, na prática, um debate que vinha ganhando corpo desde Dragon Ball Super: Hero — o primeiro longa a colocar Gohan e Piccolo no centro da ação. Agora, com a morte de Akira Toriyama e a necessidade de renovar público num mercado de animes hipercompetitivo, o estúdio decide quebrar o “ciclo do Saiyajin salvador” justamente no ano em que a franquia completa quatro décadas.
Calendário revela aposta declarada no elenco paralelo
A planilha da Toei, cruzada com pedidos de espaço em feiras como a Licensing Expo de Las Vegas, lista: um filme animado de Gohan versus Cell Max 2.0, uma minissérie focada em Broly treinando Uub e um especial televisivo com Pan liderando os avós Son Goten e Trunks adultos. Goku só figura como coadjuvante no quarto produto, um OVA comemorativo que adapta o esboço de fusão descartado de Gogeta — sinal claro de que sua presença virou peça de museu, não mais motor narrativo.
O movimento conversa com a estratégia recente de outras casas. A Shueisha passou a incentivar arcos paralelos no mangá, como mostrou o crescimento das “férias de luxo” em franquias rivais; basta ver o adiamento de Bleach para 2025 que gerou discussão sobre atrasos de luxo. No caso de Dragon Ball, o atraso vira oportunidade: dá tempo de testar novos ídolos e diversificar prateleiras antes que o público se canse de Kamehameha.
Pressão comercial empurra Goku para o banco de reservas
Executivos consultados citam dois gatilhos. Primeiro, algoritmos de streaming que favorecem ciclos curtos e múltiplos protagonistas para evitar a “saturação de feed”; segundo, a escalada no preço de contratos de dublagem de Masako Nozawa, voz de Goku há quase 40 anos, um custo que inviabiliza longa permanência da personagem como centro de tudo.
Acrescente aí a maré de produtos licenciados que já testam outras faces: o boneco de Broly foi o item Dragon Ball mais vendido na Comic-Con de San Diego em 2023, enquanto Pan apareceu no top 5 de fantasias infantis no Halloween passado, algo impensável antes do longa Hero. As distribuidoras também temem repetir o trauma vivido pelos compradores de Funimation quando a Crunchyroll iniciou o apagão de animes; quanto mais personagens rentáveis, menor o risco de depender de um único ícone em futuras renegociações.
O que muda no bolso (e na maratona) do fã
- Boxes físicos e digitais já em pré-venda sinalizam novas capas sem Goku no centro, derrubando o valor de coleções antigas, segundo lojistas de Akihabara.
- Jogos mobile preparam habilidades exclusivas para Gohan Beast e Broly Limit Breaker, incentivando microtransações fora do trio clássico Goku-Vegeta-Trunks.
- Editores da Panini sondam um mangá spin-off de Pan, capaz de puxar público feminino – nicho que Dragon Ball sempre ignorou.
A mudança não significa aposentadoria total do herói de cabelo espetado; ele continuará a aparecer como treinador ou “arma secreta” de clímax. Mas, se nada sair do trilho, 2026 ficará na história como o ponto de virada em que Goku, enfim, largou o protagonismo e abriu espaço para a nova geração salvar (e vender) o universo Saiyajin.
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