A decisão saiu em 33 segundos de vídeo, mas sacudiu 40 anos de história: Kenta Miyake será a nova voz de Majin Buu, cargo que pertencia ao lendário Kozo Shioya, morto no início de abril. Ao confirmar o sucessor, a Toei Animation colocou em prática o mesmo protocolo silencioso que já havia acionado para Bulma e o narrador — um plano de contingência que garante que nenhum elo humano interrompa a linha de produção de Dragon Ball.
Poucos minutos depois do anúncio, o nome de Miyake — conhecido por dar vida a All Might em My Hero Academia — subiu aos trending topics do X. Entre mensagens de luto e memes sobre o “Buu bombado”, o detalhe que quase passou batido é o calendário. A gravação da nova série Dragon Ball Daima entra em reta final em junho, e a pressa na escolha indica que a troca de voz será percebida já nos primeiros episódios, não em futuras temporadas.
A engenharia de vozes que mantém Goku, Bulma e agora Buu vivos
Desde a morte de Hiromi Tsuru, em 2017, a Toei adota um método quase clínico de sucessão: a) mapeia dubladores com timbre compatível; b) testa alcance vocal em diálogos inéditos, não em frases clássicas; c) mantém o sigilo até ter cinco capítulos prontos. No caso de Buu, três fatores pesaram: Miyake já grava para a empresa em One Piece, domina a “voz borrachuda” exigida pelo personagem e tem 55 anos — idade que, segundo executivos, garante pelo menos duas décadas de estabilidade.
A empresa ainda contratou um coach de sotaque de Kansai para alinhar o registro cômico de Buu, algo fundamental porque as falas do personagem viraram recurso de merchandising, indo de bonecos falantes a assistentes virtuais. É a mesma lógica que fez a Bandai lançar um Gundam pré-montado capaz de repetir frases históricas: voz e produto caminham juntos no balcão de vendas.
O impacto imediato nos estúdios ocidentais — e o alerta para os fãs brasileiros
O mercado de dublagem fora do Japão já sente o baque. Nos Estados Unidos, a Funimation — que hoje opera como Crunchyroll — costuma gravar guiando-se pela pista japonesa. Se a entonação muda, todo o time precisa ajustar timing de respiração e ataques de golpes. No Brasil, a Unidub foi avisada com 48 horas de antecedência para que Wellington Lima teste novas modulações de Palhaço e Monstro Buu, dois registros diferentes do mesmo vilão.
Para o público, o efeito virá primeiro nos games. Dragon Ball Sparking! Zero, previsto para outubro, já trocou todos os grunhidos do personagem por takes de Miyake. A substituição é cara: cada atualização de voz num título pronto custa, em média, 120 mil dólares — verba que poderia bancar um arco inteiro de animação de séries como Mob Psycho 100. Ao exibir esse gasto, a Toei sinaliza que a padronização vale mais do que fechar o balanço no azul no curto prazo.
Por que essa sucessão importa além do luto
Kozo Shioya não era apenas a gargalhada de Buu; ele ajudou a criar o ritmo de piada que Toriyama passou a escrever depois da saga Cell. Perder o ator, portanto, é perder parte do DNA narrativo. Ao eleger um substituto enquanto os fãs ainda organizam homenagens, a Toei testa o limite da memória afetiva do público — e, até agora, venceu todas as batalhas. Bulma continua Bulma, o narrador segue on, e Buu promete ganhar novo fôlego num arco que transformará o personagem em peça chave de Daima.
Se a estratégia funcionar mais uma vez, a empresa fecha o ciclo que começou em 2020, quando Akira Toriyama assinou contrato vitalício de consultor criativo. Na prática, Dragon Ball se torna uma franquia projetada para atravessar gerações sem ceder à fragilidade humana de seus criadores — um modelo que já inspira séries como Demon Slayer, cuja próxima fase aposta na troca de vozes veteranas para sustentar o hype até 2025. O suspiro final de Shioya, portanto, não encerra um ciclo; inaugura o ensaio geral de como franquias eternas aprendem a sobreviver à morte.
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