Em menos de 24 horas, a Warner Bros. publicou e retirou do ar um teaser de “Supergirl: Woman of Tomorrow” quando fãs identificaram que todas as artes usadas no vídeo vinham de geração automática por inteligência artificial, com dedos deformados, prédios duplicados e até a assinatura de um algoritmo visível no canto. A remoção relâmpago tenta estancar a sangria de comentários negativos, mas chega tarde: cópias do material já circulam nas redes e alimentam uma nova tempestade sobre a estratégia digital do estúdio.
O episódio ganha peso porque o filme ainda nem entrou em produção formal — estreia prevista só para 2026 — e já carrega o estigma de suceder “The Flash”, fiasco bilionário de 2023. Ao recorrer a IA para anunciar uma obra centrada em esperança e humanidade, a Warner abriu espaço para a acusação mais ruidosa em Hollywood hoje: substituir artistas por máquinas logo após uma greve que paralisou a indústria justamente por esse temor.
IA vira vilã antes da heroína aparecer
O vídeo, lançado como “mood trailer” no canal oficial da DC, usava a trilha épica padrão de biblioteca e colagens rápidas de uma Supergirl de olhos vítreos voando por metrópoles impossíveis. Bastaram poucos frames para os fãs detectarem incongruências típicas de IA: reflexos sem fonte de luz, letreiros sem sentido e a já infame mão de seis dedos.
Com a repercussão, ilustradores profissionais publicaram comparações entre o teaser e painéis do quadrinho original de Tom King, apontando não apenas diferenças estéticas, mas possíveis infrações de estilo que a IA costuma “aprender” sem licenciamento. Isso colocou o estúdio sob suspeita de ter violado a própria propriedade intelectual na ânsia de economizar tempo e dinheiro.
Greve recente deixou Hollywood alérgica à palavra “algoritmo”
O levante contra o vídeo expõe como a questão da IA continua inflamável. O acordo que selou a paralisação de roteiristas e atores previa salvaguardas mínimas para impedir clonagem de trabalhos, mas não tocou no marketing, zona cinzenta onde estúdios se sentem autorizados a experimentar. A Warner descobriu que a fronteira é mais curta do que pensava.
Executivos da empresa argumentaram, nos bastidores, que a peça era “meramente conceitual”. A justificativa virou munição contra eles: se até um conteúdo não oficial repercute assim, qual será a reação quando a campanha principal chegar às ruas? O Sindicato dos Artistas Gráficos, que não participou das negociações de 2023, já sinalizou que estuda ações para incluir publicidade nos termos de proteção.
Erro de cálculo agrava fragilidade comercial da nova DC
James Gunn e Peter Safran, responsáveis pelo reboot do selo DC Studios, tentam convencer investidores de que a fase “Capítulo 1: Deuses e Monstros” começa livre de escândalos. A mancha do teaser indica o contrário. Analistas lembram que “The Flash” perdeu cerca de US$ 200 milhões, “Blue Beetle” não pagou o próprio custo de produção e “Shazam 2” mal cobriu marketing — cenário que torna qualquer ruído, por menor que seja, uma ameaça às finanças.
Esse vácuo de confiança contrasta com casos positivos recentes, como a estratégia da Sony em “Helldivers 2”, que virou manchete por reverter a fuga de assinantes do PlayStation Plus ao dialogar diretamente com a comunidade (entenda o movimento). A comparação reforça a ideia de que transparência e proximidade com o público valem mais do que economizar horas de arte usando IA.
Sem o vídeo, a Warner agora corre para refilmar materiais promocionais tradicionais e costurar parcerias com ilustradores de nome, enquanto mede a temperatura nas redes. A heroína kryptoniana ainda não decolou, mas já aprendeu a lição mais terrena de Hollywood: no jogo do hype, cada frame conta — e cada dedo extra criado por algoritmo custa caro.

