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Bandai ressuscita Zaku II “fantasma” com camuflagem realista e põe Gundam de volta ao front militar

O Zaku II mais famoso dos animes sempre foi verde-limão ou vermelho-sangue, mas a Bandai decidiu mexer no que parecia imutável: a partir de julho, chega às lojas japonesas um Zaku coberto por manchas de marrom, oliva e preto, padrão digno de blindado real. A miniatura, lançada na linha Robot Spirits ver. A.N.I.M.E., revive um design de catálogo de 1982 que jamais apareceu em tela.

Ao trocar o charme pop de “vilão de opereta” por tinta de exército, a fabricante joga luz em duas guerras paralelas: a disputa mercadológica pelo bolso do colecionador veterano e o velho debate sobre o quanto Gundam ainda quer ser ficção militar. É um movimento que parece pequeno, mas reposiciona a marca no ano em que a franquia completa 45 anos e vira vitrine de tudo o que a Sunrise planeja para a próxima década.

Um Zaku que só existia no papel ganha corpo em 2024

A Bandai repescou o visual de um folheto da série “Real Type” de 1982, criado na época para vender kits que cruzavam robôs de anime com a estética de tanques da OTAN. A proposta era dar “plausibilidade” ao universo, mas o ensaio acabou engavetado quando o carisma de Char Aznable dominou o imaginário popular. Quatro décadas depois, o mesmo rascunho vira produto premium de 13 cm, restrito à loja on-line Premium Bandai e limitado a um lote único.

Não se trata apenas de trocar cores. O molde recebeu novas ranhuras para simular soldas industriais e vem com três tipos de decalque: identificação de esquadrão, numeração tática e o emblema quimérico do Principado de Zeon sobreposto a códigos bélicos inspirados na Otan. Até a arma-padrão, o rifle ZMP-50, passou por textura fosca para evitar reflexo em dioramas “real war”.

A produção usa injeção de plástico multishot, técnica que funde pigmentos ainda na matriz e garante manchas irregulares, impossíveis de repetir de peça para peça. É a primeira vez que a Bandai aplica esse processo em um mobile suit fora da série Metal Build, o que explica o preço salgado: 9 350 ienes antes do frete.

Cores que contam outra guerra dentro da franquia

A camuflagem não é mero fan-service: ela reacende um flanco que Gundam vinha evitando desde o sucesso de Witch from Mercury, focado em drama colegial. Ao oferecer um Zaku que parece saído de um simulador militar, a Bandai cutuca o público que prefere cronologias clássicas e deseja ver o realismo estratégico de volta ao centro do palco.

Executivos da divisão Collectors já vinham testando o apetite por variantes obscuras. No fim de 2023, um Gouf de deserto esgotou em 48 horas, mesmo custando 20% acima da média. O Zaku camuflado repete a fórmula, mas empurra a discussão para outro patamar: se vender bem, abre porta para contrapartes realistas de heróis icônicos — imagine um RX-78-2 em cinza naval, por exemplo.

Corrente de relançamentos obscuros não é acidente

Bandai não está sozinha. A Hasbro acaba de reativar uma forma suprema de Optimus Primal, e a Kadokawa pressiona o YouTube por fair use de recaps de anime numa tentativa parecida de controlar narrativas esquecidas. O ponto em comum é claro: mercados maduros já compraram todas as versões “canônicas”, e a próxima fronteira de lucro mora em edições que só colecionadores hardcore reconhecem.

O Zaku II camuflado surge, portanto, como balão de ensaio para saber até onde a nostalgia de nicho sustenta ciclos de produção cada vez mais curtos. Se o modelo estourar — e sinais iniciais indicam pré-venda aquecida na Ásia e na Europa —, veremos um dreno constante de designs “fantasma” saltando de artbooks para prateleiras. E quem acompanha Gundam sabe: nada move mais rápido que a junção de memória afetiva com a promessa de edição limitada.

Para o fã brasileiro, a importação oficial ainda é incerta, mas lojas especializadas já calculam preço final próximo aos R$ 900. Caro? Sim. Mas, como lembra o colecionador Yuki Okada, pagamos pela sensação de folhear um catálogo antigo e, desta vez, ver aquelas páginas ganharem volume, cheiro de plástico e lugar de destaque na estante. Quando um desenho de 42 anos vira objeto real, a linha entre hobby e arqueologia pop fica mais tênue — e é exatamente aí que a Bandai quer fincar seu estandarte.

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