O roteiro final de Lanterns derrubou um dos pilares mais sólidos da mitologia dos Lanternas Verdes: Abin Sur não cai na Terra agonizante para entregar o anel a Hal Jordan. Na versão de James Gunn, o alienígena chega vivo, consciente e oficialmente escalado pela Guarda dos Setores para investigar o “buraco negro” de Coast City — o mesmo fenômeno que, no cânone clássico, só seria descoberto muito depois pelo próprio Hal.
Essa inversão de papéis tira Jordan do centro da lenda e abre espaço para um trio inusitado — Abin, John Stewart e Guy Gardner — comandar a linha de frente logo no piloto. Mais do que uma curiosidade, o desvio indica a pressa da DCU em estabelecer seus heróis como detetives cósmicos, encaixando a franquia num tom de suspense investigativo que conversa com True Detective e não com o épico espacial tradicional.
Abin Sur sobrevive e se torna a lente moral da série
Nos quadrinhos, a breve morte de Abin Sur serve para legitimar Hal Jordan como “o escolhido”. Em Lanterns, a permanência do veterano na trama permite algo que o cinema da DC nunca ousou: questionar abertamente o processo de seleção do anel. Segundo fontes ligadas à sala de roteiristas, Abin acusa a Tropa de ter se tornado burocrática, piscando para a crítica de militarização que James Gunn quer imprimir em toda a fase um.
A mudança ainda corrige um gargalo narrativo: deixar um civil testar, dominar e liderar um dos armamentos mais perigosos do universo sempre soou inverossímil fora da página. Ao escalar Abin como tutor vivo, a série pavimenta o treinamento inédito de John Stewart — cuja dieta vegana já causou burburinho nos fóruns — e provoca Gardner a quebrar a “lei de um Lanterna por vez na Terra”, como já analisamos em Guy Gardner viola a “lei de um Lanterna por vez” e muda o tabuleiro de James Gunn.
Efeito dominó: Hal Jordan vira carta de suspense e produtos já se mexem
Hal não aparece no episódio inicial, mas é citado como “variável de alto risco” num relatório interno da Tropa. O sumiço planejado prepara o terreno para uma entrada tardia, possivelmente como antagonista momentâneo — recurso típico de Gunn para chacoalhar quem o público julga conhecer. A aparição fantasma também explica por que os sets vazados da LEGO listam apenas três minifigs verdes, mantendo uma quarta silhueta em sombra nos catálogos preliminares.
Com Abin respirando e Coast City convertida no “coração” do DCU, o roteiro planta conexões diretas com futuras produções. O corpo “impossível” que surge congelado no piloto de Lanterns — e que já acenou para a chegada do Caçador de Marte — é encontrado justamente na nave de Abin, indicando que ele carrega segredos maiores que um simples anel. Em linguagem de mercado, trata-se de uma pedra angular: enquanto Supergirl sofreu por introduzir personagens sem lastro, Lanterns constrói uma figura conhecida, mas reinventada, para sustentar o crossover que vem aí.
Ao salvar Abin Sur da morte anunciada, a DCU se dá o luxo de reescrever a própria certidão de nascimento dos Lanternas na cultura pop. Se a aposta vingar, Hal Jordan surgirá não mais como herói predestinado, e sim como consequência — possivelmente perturbadora — de decisões políticas tomadas muito antes de seu primeiro voo. Essa inversão, sutil para o público casual, pode ser o diferencial que separa o novo universo compartilhado de mais um reboot esquecível.

