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Ex-chefe da Sony irrita fãs ao dizer que o fim dos discos “não é grande coisa”

Shuhei Yoshida, figura histórica da divisão PlayStation, afirmou nesta semana que não vê “grande problema” em a Sony abandonar os jogos em disco a partir de 2028. A frase caiu como gasolina num debate que já estava em chamas: o anúncio do cronograma só-digital foi recebido com críticas de jogadores, lojistas e até desenvolvedores que ainda dependem das prateleiras físicas para ganhar visibilidade.

A declaração expõe uma fissura que vai além da nostalgia pelo plástico: revela o quanto parte da liderança da indústria se afastou das dores do consumidor, que olha para problemas concretos — licenças sumindo de catálogos, preservação histórica e dependência de servidores — e não para a conveniência corporativa vendida como inevitável.

Minimizar o disco irrita base e acirra desconfiança

Yoshida tentou emplacar a ideia de que “o streaming já fez isso com a música” e, portanto, jogos físicos estão condenados por mera evolução tecnológica. O público rebateu imediatamente: serviços como PlayStation Plus seguem retirando títulos, sete deles agendados para 15 de setembro, deixando quem pagou a assinatura sem acesso permanente. A memória do consumidor grava as ausências, não o discurso de progresso.

O timing também foi desastroso. Menos de um mês antes, a Remedy cancelou a edição física de Control Resonant e virou alvo de reclamações idênticas. Quando duas gigantes tomam rumos paralelos, o sinal para o fã é claro: a indústria fala em “futuro”, mas entrega menos posse e mais dependência.

Internamente, desenvolvedores menores relatam preocupação. Pelas mãos de Yoshida, hoje responsável pelo programa PlayStation Indies, muitos desses estúdios ganharam vitrine justamente em caixas azuis compradas por colecionadores. Se a própria cara do selo indie relativiza o fim dos discos, quem garante que títulos de nicho não desaparecerão no backlog infinito da PS Store?

Risco estratégico: da prateleira vazia ao jogo inacessível

O argumento da Sony se ancora em custos logísticos: prensar, estocar e distribuir mídia física pesa no orçamento. Porém, analistas de mercado lembram que o tíquete médio do consumidor de luxo — aquele que compra edições especiais no dia 1 — é de 30% a 40% mais alto do que o do comprador exclusivamente digital. Virar as costas para esse grupo num ciclo de console que ainda dura mais cinco anos soa, no mínimo, precipitado.

Também há a questão regulatória. A União Europeia e o Japão discutem leis de preservação digital que podem obrigar as plataformas a manterem servidores ativos ou fornecerem cópias funcionais após o encerramento de serviços. Se a Sony fechar a porta do disco antes de haver clareza jurídica, pode terminar obrigada a sustentar data centers caros só para cumprir a lei — o inverso da economia prometida.

Já no Brasil, varejistas calculam que até 20 mil empregos diretos giram em torno da venda de jogos físicos. Sem o produto na gôndola, redes especializadas perdem o chamariz que movimenta merchandising de acessórios e gift cards. O corte afeta o ecossistema como um todo, empurrando o jogador para ecossistemas rivais ou para o quitute digital gratuito no celular.

Em público, Yoshida manteve o sorriso diplomático. Nos bastidores, porém, executivos escutam o barulho das redes sociais como quem ouve um alarme de incêndio longe demais. Se a fogueira é pequena ou já ganhou labaredas, 2028 dirá. Por ora, a frase “não é grande coisa” rendeu exatamente o oposto do pretendido: coroou, em praça digital aberta, a desconfiança de que a decisão sobre o fim dos discos ignora o elo mais antigo — e ainda rentável — entre PlayStation e seus fãs.

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