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Hulu fura o bloqueio da Crunchyroll e pega Jujutsu Kaisen 0 no contrapé do mercado de anime

O prequel Jujutsu Kaisen 0 desembarca no catálogo do Hulu em 1º de maio e, com ele, a plataforma da Disney atravessa o terreno até então dominado quase sem contestação pela Crunchyroll nos Estados Unidos. A jogada quebra um ciclo de três anos em que o longa circulava só em cinema, Blu-ray importado e na própria Crunchyroll — ainda hoje detentora do streaming oficial da série de TV.

O inesperado se tornou possível por uma brecha contratual herdada da antiga Funimation e atiça um movimento maior: estúdios japoneses topam abrir mão da exclusividade do “Netflix dos otakus” para testar novas janelas de receita. E isso acontece justamente quando a segunda temporada do anime expôs a exaustão do estúdio MAPPA, como mostrou o atraso do Blu-ray de Attack on Titan, acendendo a luz amarela sobre custos cada vez mais altos.

Hulu avança no flanco dos animes e mede forças com a Disney

Desde que a Disney assumiu o controle majoritário do Hulu, os analistas esperavam a migração de parte do nicho otaku para dentro do ecossistema Disney-Star. Em 2023, a empresa já ensaiou com Bleach: Thousand-Year Blood War, mas ainda dependia de acordos pontuais. Jujutsu Kaisen 0 eleva a aposta: é a franquia de mangá mais vendida dos últimos dois anos fora One Piece e virou vitrine mundial depois de arrecadar US$ 196 milhões nos cinemas.

Por trás da mudança está o fim gradual dos contratos que a Toho Animation assinou antes da fusão Funimation-Crunchyroll. Como a Funimation tinha prioridade apenas para a janela de home video, a Toho ficou livre para leiloar o streaming do filme a partir de 2024. O Hulu se mexeu rápido e pagou um valor estimado em US$ 11 milhões pelo pacote trienal, segundo executivos próximos à negociação.

O passo encaixa no plano maior da Disney de falar direto com o fã de cultura pop japonesa — o mesmo que motivou a futura série de Kingdom Hearts na Disney+, já revelada neste portal. Ao absorver um título quente da Shonen Jump, o Hulu cria um “laboratório” para testar dublagens simultâneas, lançamentos pagos dentro do app e integração com o Star+ na América Latina.

Impacto para o público brasileiro e a conta que chega à Crunchyroll

A Crunchyroll mantém a série regular de Jujutsu Kaisen no Brasil, mas agora a presença do filme em outro serviço abre caminho para que o Star+ também o adicione por aqui. O braço latino do Hulu já negocia legendas e dublagem com o estúdio UniDub, o que indicaria estreia no segundo semestre sem custo extra para assinantes do combo Disney.

Na prática, o fã brasileiro pode assistir à fase zero de Yuji Itadori sem depender da assinatura premium da Crunchyroll — ao mesmo tempo em que a plataforma laranja perde sua principal isca para conversões sazonais. O risco não é pequeno: dados do Sensor Tower apontam que 23 % dos downloads da Crunchyroll no último ano vieram de picos coincidentes com filmes ou arcos especiais.

Não é caso isolado. Nos últimos 18 meses, títulos como Spy x Family, Vinland Saga e licenças clássicas de Gundam migraram ou dividiram janela com concorrentes. A fragmentação, vista também no acirramento entre fãs que disputaram o balde da Hello Kitty no cinema americano, obriga o público a escolher entre pagar mais ou perder lançamentos de conversa obrigatória nas redes.

Para a Crunchyroll, restam duas cartas: reforçar produções próprias — estratégia já iniciada com The God of High School — ou abrir o cofre em renovações lotéricas. Enquanto isso, o Hulu/Disney marca um ponto estratégico: mostra que a batalha do streaming de anime está longe de terminar e que o domínio de uma única plataforma não é mais garantia, nem mesmo para feitiços de alto escalão como Jujutsu Kaisen.

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