O pedido de desculpas veio seco, sem trailer de compensação: “o jogo não correspondeu plenamente às expectativas”. Com essa frase, a Bandai Namco rasgou o roteiro otimista de lançamentos e anunciou que vai mexer nas entranhas de seu título mais recente de Dragon Ball para PlayStation 5 e Nintendo Switch — exatamente o recado que uma comunidade irritada esperava, mas que pouquíssimos estúdios costumam dar em público.
O recuo ganhou peso de bastidor: segundo desenvolvedores, a meta de usuários ativos mensais caiu quase 40% nos dois primeiros trimestres, puxada por críticas a modos repetitivos e a um sistema de monetização que travava progressão. A manobra expõe não só o tropeço comercial, mas o quanto a marca Dragon Ball, sob a sombra do falecido Akira Toriyama, virou termômetro de paciência zero para erros básicos.
Números vermelhos derrubam a promessa de “serviço contínuo”
Executivos previam que o game sustentaria 1,5 milhão de jogadores recorrentes no primeiro ano, apoiado em atualizações mensais. Ficaram nos 900 mil, conforme relatório interno que vazou para acionistas. A queda já se faz sentir nos servidores: partidas ranqueadas levaram até oito minutos para encontrar sala no fim de março, quando o objetivo era pico de 90 segundos.
Esse hiato impacta diretamente a carteira. Itens cosméticos de alto valor — a maior fonte de receita planejada — venderam 26% abaixo do projetado, apontam números a que o portal teve acesso. A matemática ficou simples: sem fila cheia, não há vitrine para skins; sem skins, some o faturamento que bancaria novos conteúdos. O resultado foi o corte de 15% da equipe de live ops e o adiamento silencioso de dois passes de temporada.
Virada inclui crossplay, balanceamento radical e fan-service cirúrgico
Diante do fiasco, a Bandai montou força-tarefa com três eixos: liberar crossplay total entre PS5, Switch e PC ainda no inverno brasileiro; reescrever a progressão para que golpes icônicos não fiquem trancados atrás de loot boxes; e injetar fan-service de impacto em vez de conteúdo genérico. O primeiro exemplo já está escolhido: uma variação do Vegeta Super Saiyan baseada no rascunho inédito de Toriyama revelado em abril, que reacendeu o apetite por colecionáveis.
O estúdio também colocará na geladeira o polêmico sistema de “missões-relâmpago”, que obrigava o jogador a logar em horários pré-definidos, modelo que inflava a métrica de usuários diários mas gerava frustração. No lugar, virá um calendário flexível, inspirado no sucesso de engajamento de títulos como Fortnite Creative, com possibilidade de missões criadas pela comunidade.
Por que isso ecoa além de Dragon Ball
A mudança pública de rota ergue sinal para todo o nicho de animes nos consoles. Franquias como My Hero Academia — que já tropeçaram em lançamentos recentes, conforme analisamos em matéria anterior — observam de perto a reação do mercado. Se a correção de curso funcionar, abre precedente para ciclos de desenvolvimento mais curtos e transparência brutal como antídoto para o desgaste de fãs veteranos.
No horizonte, o cronograma repaginado prevê primeira grande atualização em agosto, com teste aberto de crossplay e pacote gratuito para quem comprou o jogo nos três primeiros meses. É o mínimo para reconquistar jogadores que, de tanto gritar Kamehameha, aprenderam a identificar promessa vazia a quilômetros.

