Quando Demon Slayer explodiu em 2019, metade da indústria correu para repetir cores vibrantes, melodrama familiar e batalhas coreografadas como musical; a outra metade parou para pensar. A MAPPA, dona de Jujutsu Kaisen, ficou no segundo grupo e, segundo o presidente Manabu Otsuka, decidiu “parecer cool antes de parecer fofo” — rejeitando conscientemente a fórmula que dominava as tabelas de streaming e bilheteria.
Quatro anos depois, a aposta sombria pagou dividendos inesperados: além de colocar Gojo Satoru na conversa sobre personagens mais populares da década, o anime abriu espaço para linhas premium, como o relógio Hollow Purple, que dificilmente caberiam no merchandising teen de Tanjiro e Nezuko. Entender por que a MAPPA virou à esquerda enquanto todos viravam à direita ajuda a decifrar a próxima onda de investimentos em anime.
Rejeição calculada: menos lágrima, mais neon frio
Em reuniões internas relatadas pelo próprio Otsuka, o estúdio mapeou quatro pilares de Demon Slayer que pareciam intocáveis: narrativa familiar, paleta quente, humor infantil e vilões caricatos. Jujutsu Kaisen inverteu todos. O protagonista Yuji lida com morte e existência, não com laços de sangue; a fotografia privilegia verdes e roxos foscos; o humor é pontual e cínico; as maldições ameaçam mais que assustam.
O ponto decisivo veio no orçamento de luz e sombra. Enquanto a ufotable investe em gradientes multicoloridos para cada golpe de espada, a equipe de Jujutsu alocou verba em animação de impacto — linhas de movimento mais “pesadas” e menos partículas. Essa troca reduz o tempo de render e permite sequências de luta mais longas no mesmo episódio, algo que o espectador sente, mas raramente identifica.
A estética sombria abriu a porteira do luxo, não do brinquedo
Ao negar a cartela infantil, a MAPPA também virou a chave do licenciamento. Em vez de bonecos articulados e almofadas de pelúcia, surgiram parcerias com joalherias e marcas streetwear. O relógio que recria o ataque Hollow Purple custou o equivalente a cinco boxes de Blu-ray, e esgotou em horas. Essa curva de receita explica por que a série sustenta um intervalo de três anos entre temporadas sem perder relevância: merchandising premium rende margem maior e exige menor volume de produtos.
Com o público adulto bancando itens de colecionador, a editora Shueisha pode ser mais paciente na liberação de arcos-chave do mangá — o contrário do que acontece com franquias que dependem de brinquedos sazonais. A estratégia ecoa o que vimos na Saga Final de One Piece: segurar informação aumenta desejo, e desejo paga contas.
O recado da MAPPA, portanto, vai além de “fazer diferente”. Trata-se de escolher o tipo de dinheiro que se quer ganhar. Se Demon Slayer mostra como mobilizar famílias inteiras, Jujutsu Kaisen prova que o bolso do fã mais velho pode sustentar temporadas igualmente ambiciosas — desde que o anime pareça, de fato, adulto. A próxima leva de produções já tomou nota.

