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Bandai ressuscita Broly maligno e reacende a disputa entre nostalgia e cânone em Dragon Ball

A Bandai fez o que Goku não conseguiu em 2018: trouxe Broly de volta ao lado sombrio. A fabricante anunciou para outubro uma figura da linha S.H. Figuarts que ignora completamente a redenção mostrada em Dragon Ball Super e aposta no lendário Super Saiyajin de olhos vazios e sorriso hostil, exatamente como o público o conheceu nos anos 90.

O movimento, que já faz pré-vendas dispararem no Japão, abre uma fissura curiosa: o Broly malvado nem é mais o “oficial” do mangá, mas continua mandando na vitrine dos colecionadores. E essa escolha diz mais sobre a nova guerra dos licenciamentos do que sobre a cronologia de Akira Toriyama.

Versão vilã de Broly renasce em PVC no timing do aniversário de 40 anos

A peça chega enquanto a Shueisha prepara as celebrações pelos 40 anos de Dragon Ball em 2024. A Bandai, dona de quase todos os brinquedos da franquia, percebeu que a data será bombardeada por relançamentos oficiais do Broly “bonzinho”. Ao antecipar a festa com o antagonista clássico, a empresa coloca no mercado o item que faltava ao fã que cresceu alugando fitas VHS dos filmes não canônicos.

Nesse pacote vêm detalhes que só o colecionador hardcore percebe: a cicatriz no peito esculpida em relevo, o tom esmeralda do cabelo idêntico ao acetato original e até a caixa com o layout “Dragon Ball Z Movie 08”, referência ao primeiro longa em que Broly aparece. É o tipo de fetiche histórico que elevou a procura inicial a 140% da capacidade de produção estimada, segundo revendedores de Akihabara.

Negócio de coleção vira laboratório de memória afetiva para toda a cultura pop

O caso Broly não é isolado. Este ano a LEGO rifou o vilão Devastator em caixas-surpresa de Transformers e a Paramount reexibiu Attack on Titan nos cinemas para testar novos produtos derivados. Ambas as manobras, detalhadas em nossa cobertura sobre a corrida nostálgica dos Transformers e o laboratório de nostalgia de Attack on Titan, seguem a mesma lógica que agora impulsiona o Broly das trevas: vender passado para financiar o futuro.

Para a Bandai, o risco é canibalizar o próprio herói de 2018, que ainda rende bonecos articulados no Ocidente. Mas o cálculo mostra que as duas versões atraem públicos distintos: o colecionador acima de 30 anos, disposto a pagar R$ 600 na importação expressa, e o novo fã que chega pela série Super nas plataformas de streaming. Ao isolar o vilão numa tiragem limitada, a empresa estimula a FOMO de um lado e protege o faturamento regular do outro.

O detalhe que escapa ao olhar casual: licenças duelam dentro da mesma vitrine

Ao contrário do que parece, Bandai não detém exclusividade total sobre Broly. Existem sublicenças para estúdios menores produzirem kits de modelagem e estátuas estáticas. Esses contratos, porém, limitam o visual ao Broly herói para não colidir com a linha premium da S.H. Figuarts. Ao lançar o vilão antes do aniversário oficial, a Bandai fecha a porta para competidores que tentariam driblar a restrição via “inspirações” no design dos anos 90 — técnica comum no mercado cinza.

É também uma jogada de marca: colocar lado a lado, na Comic-Con de Nova York, o Broly clássico e o contemporâneo, ambos licenciados, reforça a ideia de que só a Bandai consegue entregar a cronologia completa em forma de action figure. E, no fim, esse é o verdadeiro campo de batalha de hoje: não quem derrota Freeza mais rápido, mas quem monopoliza a narrativa física que cabe na prateleira do fã.

Se a estratégia vai vingar ou criar fadiga na franquia, só os números do último trimestre dirão. Por ora, o rugido do lendário Super Saiyajin voltou a ser vilão — e chegou às lojas antes mesmo de Goku perceber.

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