O botão de desligar da sua Smart TV da LG pode não ser o ponto final que você imagina. Testes conduzidos por um laboratório europeu de cibersegurança detectaram pacotes de áudio deixando o aparelho enquanto a tela permanecia preta, situação que contraria a documentação oficial da marca e fez a sul-coreana disparar comunicados de urgência negando qualquer “escuta secreta”.
O conflito técnico virou uma queda de braço regulatória: autoridades de proteção de dados da União Europeia e ao menos dois órgãos sul-americanos já solicitam logs e códigos-fonte para checar se o microfone embutido continua energizado no modo standby. Se confirmada, a prática pode custar multas milionárias e abrir precedente para outros dispositivos conectados – inclusive caixas de som e consoles.
Testes provam microfone ativo após o botão vermelho
O estopim veio de um estudo replicado em três países usando analisadores de tráfego Wi-Fi. Em todos os cenários, as TVs LG com webOS 7 enviaram pings criptografados para servidores na Coreia do Sul poucos segundos depois de receber o comando “Power Off”. Parte desses pings carregava fragmentos de áudio em tempo real, o que indica que o sistema apenas desliga a imagem, mantendo placa de voz e rede em plena atividade.
A LG sustenta que o recurso Quick Start+ exige processamento em fundo para ligações rápidas de assistente de voz. Ainda assim, o firmware não informa ao usuário que o microfone segue ligado nem oferece opção clara de desligamento físico. Especialistas lembram do caso da Samsung em 2015 – outro episódio de escuta acidental – e apontam repetição de falhas de transparência.
Mesmo quem jamais ativou Alexa ou Google Assistant pode estar vulnerável. Segundo os pesquisadores, a captura dispara por padrão sempre que o televisor detecta qualquer som acima de 45 decibéis no ambiente. O dado é empacotado, filtrado por algoritmos de “hotwords” e só então descartado ou enviado para análise. Esse trânsito inicial de áudio cru é o que fere regulamentos europeus, que exigem consentimento explícito antes de qualquer coleta.
Disputa técnica vira caso de defesa do consumidor – e pode respingar no Brasil
O Procon-SP confirmou que aguarda respostas da LG sobre quantos modelos vendidos no país carregam o mesmo módulo de voz. A lei geral de proteção de dados brasileiras exige não só aviso prévio, mas também objetivo claro para cada coleta. Caso contrário, a infração é passível de multa de até 2% do faturamento, teto que assustou outras gigantes – vide a correção relâmpago que a Sony fez no boneco premium de Death Stranding 2 após erro no casaco.
Nos bastidores, grandes varejistas contam que receberam sinal amarelo da LG para segurar novas promoções de Smart TVs por 15 dias, prazo em que a empresa promete divulgar atualização de firmware. A movimentação indica que a marca prefere retocar o software antes que um recall formal seja cogitado, evitando rótulo de “TV espiã” às vésperas da Black Friday.
Como desativar de verdade o microfone, segundo hackers éticos
- Desligar o Quick Start+ resolve apenas parte do problema; é preciso também negar permissão de voz em Configurações > Geral > Privacidade.
- Modelos com tampa plástica sobre a câmera ainda deixam o microfone livre; a única barreira física é remover o flat cable interno, operação que anula a garantia.
- Routers avançados permitem bloquear domínios *.lge.com e *.lgsmarttv.com, cortando tráfego de telemetria – medida extrema, mas efetiva.
O caso escancara um dilema que vai além da LG: o design de aparelhos conectados que nunca descansam, mesmo sem uso aparente. Enquanto o firmware oficial não chega e os reguladores não batem o martelo, a recomendação de especialistas é simples – se a conversa for sensível, tire a TV da tomada.

