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Greta Gerwig leva Nárnia à Irlanda do Norte e embaralha ordem dos livros na nova adaptação

Quando a equipe de scouts de Greta Gerwig desembarcou na costa recortada de County Antrim, na Irlanda do Norte, a produção de Nárnia ganhou mais do que um cenário: ganhou pista de que a diretora quer distância estética da trilogia filmada na Nova Zelândia nos anos 2000. O castelo de Dunluce, já reservado e parcialmente fechado ao público, será a nova Cair Paravel.

A mudança geográfica vem acompanhada de outra guinada: fontes ligadas ao roteiro confirmam que Gerwig pretende abrir a saga pelo livro “O Sobrinho do Mago” e, ainda no mesmo filme, saltar para eventos de “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. É o tipo de reorganização narrativa que a Netflix vem pedindo para conversar com um público que consome sagas em ordem de impacto, não de publicação.

Irlanda do Norte assume o papel de Nárnia mais crua e medieval

Os produtores testaram locações em Praga e no interior da Escócia, mas a conjunção de fortalezas em ruínas, falésias dramáticas e incentivos fiscais britânicos pesou a favor da Irlanda do Norte. Segundo o órgão oficial Screen NI, o acordo libera uso de áreas dentro da Causeway Coastal Route, cenário natural que alcança 40 metros de altura — ideal para enquadrar a chegada dos Pevensie sem efeitos artificiais excessivos.

A opção ecoa o que “Game of Thrones” fez na região, mas com uma diferença: a equipe de Gerwig quer menos CGI e mais textura natural. O diretor de fotografia, cujo nome ainda corre sob NDA, já solicitou filtros que puxem o verde pra tons musgosos, procurando afastar a paleta vibrante que marcou a franquia de 2005. Nos bastidores, a ordem é “tirar o esmalte” de Nárnia para encaixar o realismo pós-“Barbie”.

Roteiro funde dois livros e assume risco de descaracterizar cronologia

A decisão de começar pelo pré-fácio mitológico de “O Sobrinho do Mago” resolve um problema antigo: apresentar Aslam, a Feiticeira Branca e o guarda-roupa sem deixar perguntas soltas. Só que a costura entre os dois volumes exige condensar 30 anos de história narniana em menos de 150 minutos. Um consultor literário ouvido pela reportagem calcula que, se o corte atual vingar, itens simbólicos como os anéis verdes e amarelos virarão simples easter eggs.

Gerwig, famosa por adaptar “Adoráveis Mulheres” com liberdade formal, repetirá a tática aqui. A peça-piloto obtida por executivos da Netflix elimina a batalha de Beruna — que no livro de C. S. Lewis encerra a tirania da Feiticeira — e desloca o clímax para a criação de Nárnia pelo canto de Aslam. O efeito prático é politizar menos a luta do bem contra o mal e enfatizar o poder criativo da palavra, tema caro à filmografia da diretora.

Netflix mira geração pós-“Barbie” e banca risco comercial

O orçamento preliminar, na casa dos 180 milhões de dólares, só se justificou após “Barbie” virar a maior bilheteria de 2023. A plataforma calcula que cerca de 40% do público do filme de boneca nunca viu uma produção de Nárnia no cinema. Para fisgar essa audiência, a campanha de marketing testada em focus groups troca leões rugindo por narração em primeira pessoa da própria Lucy, agora adulta, refletindo sobre memória e poder feminino.

O cronograma oficial não muda: filmagens principais entre março e julho de 2024, pós-produção até o fim de 2025 e estreia global em 2026. O que muda é o discurso. Ao deslocar Nárnia para ruínas medievais reais e quebrar a ordem dos livros, Gerwig avisa que seu reino gelado não quer mais viver de nostalgia — quer disputar espaço com as grandes franquias de fantasia num tom que combina chão de pedra, mitologia condensada e, sobretudo, autoralidade assumida.

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