Uma reunião reservada na última sexta-feira selou o improvável: a Rare, joia britânica da Xbox Game Studios, passa a se reportar diretamente ao organograma da Activision. Na prática, a casa de Sea of Thieves deixa o guarda-chuva de Matt Booty e cai no colo de Rob Kostich, executivo que transformou Call of Duty em linha de produção anual.
O aceno parece burocrático, mas acende um alerta que vai além de cargos — a Rare construiu fama de lançar menos, experimentar mais e trocar de gênero quando bem entende. O novo tutor, porém, opera pelo rigor de metas trimestrais e instinto de franquia duradoura. É o primeiro choque cultural real desde a compra da Activision Blizzard King pela Microsoft e já coloca em risco o projeto mais nebuloso do estúdio, Everwild.
Modelo industrial da Activision pressiona o laboratório criativo da Rare
Segundo fontes próximas à reestruturação, a primeira ordem na mesa é padronizar ferramentas de desenvolvimento. A Activision quer pôr o motor interno da Rare lado a lado com o IW Engine de Call of Duty para avaliar sinergias de pipeline. Esse tipo de auditoria raramente termina com dois motores coexistindo — o que pode forçar Sea of Thieves a migrar de tecnologia ou aceitar um longo congelamento de features.
O próprio esquema de entregas começa a mudar. Até hoje, o jogo pirata recebia “Seasons” trimestrais, com margem elástica para atrasos. O cronograma proposto agora fatiaria conteúdo em ondas mensais mais curtas, copiando a cadência de Warzone. Esse ajuste pode até aumentar a visibilidade do game, mas obriga a Rare a reduzir eventos experimentais e gastar parte da equipe em balanceamento semanal, atividade que o estúdio sempre delegou a relatórios automatizados.
Quem acompanha a Rare desde Banjo-Kazooie nota uma pista sutil: a troca de gestão coincide com a entrada de veteranos da Toys for Bob em projetos internos da empresa britânica. O movimento remete à recente manobra da Microsoft de encostar Halo na estrutura da Activision, reforçando a tese de uma linha de montagem cross-studio para títulos serviço.
Everwild vira barômetro: projeto pode renascer ou desaparecer
Everwild já passou por um reboot silencioso em 2021 e ainda não possui janela de lançamento. Agora, a Activision exige um “pitch” revisado em até 90 dias. Entre as possibilidades discutidas internamente estão enxugar o escopo, transformar o conceito em experiência cooperativa live-service ou, no pior cenário, arquivar o código até segunda ordem. Numa empresa que leva Crash Bandicoot e Tony Hawk ao limbo quando não enxergam rota segura de receita, o futuro de Everwild parece frágil.
A pressão não vem só de cima. Investidores que receberam relatório interno da Microsoft apontam Rare e 343 Industries como estúdios “sub-alavancados em potencial de monetização”. O argumento é que propriedades intelectuais de alta afinidade com público infantil e jovem — caso de Sea of Thieves — podem dobrar faturamento anual com passes premium e colaborações externas, recurso visto em franquias como Fortnite. A Rare resistiu a esse modelo, mas novos KPIs ligados a retenção diária já entraram na planilha de performance.
Sem aceno oficial ao legado, Banjo e Perfect Dark permanecem em espera
Entre os fãs, a pergunta que mais ecoa é sobre o retorno de clássicos como Banjo-Kazooie e Perfect Dark. Nos bastidores, a Rare não esconde que prefere manter a dupla fora do radar enquanto ajusta a casa. A Activision, por outro lado, enxerga valor em remasters que preencham lacunas de calendário, estratégia semelhante ao uso de Modern Warfare Remastered para manter a marca Call of Duty na vitrine. Nada foi aprovado, mas há conversas preliminares para testar uma “coleção 4K” em 2025, aproveitando o buzz do Nintendo 64 que circula no streaming e no TikTok.
Por ora, a única certeza é a de que a Rare nunca esteve tão exposta a métricas de curto prazo. Se a fusão vai sufocar a veia experimental ou oferecer orçamento para voos mais altos, o veredito chegará primeiro pelas águas de Sea of Thieves: caso o navio passe a velejar com vento de microtransações e atualizações relâmpago, o resto do catálogo deve seguir a mesma rota.

