InícioAnimesMorre Toshio Masuda, o diretor que ensinou o anime a pensar como...

Publicações relacionadas

Morre Toshio Masuda, o diretor que ensinou o anime a pensar como cinema

A notícia chegou discretamente pelos jornais de Nagoya, mas o baque atravessou continentes: Toshio Masuda, 98 anos, morreu de causas naturais no último fim de semana. O cineasta que transformou “Space Battleship Yamato” em febre nacional – e, por tabela, empurrou a animação japonesa para as salas de cinema – encerra uma carreira que costura yakuza noir, musicals pop e até o bloco japonês de “Tora! Tora! Tora!”.

O detalhe que explica por que isso ainda importa: sem Masuda, a TV nunca teria virado tela grande para a geração otaku dos anos 70. Ao condensar a série televisiva em um longa de 135 minutos e dar a ela escala épica, ele inaugurou uma equação que hoje move franquias de “Demon Slayer” a “Jujutsu Kaisen”.

Antes de Luke Skywalker, Yamato já praticava ópera espacial de blockbuster

Quando o primeiro filme de “Yamato” estreou em 1977, “Star Wars” ainda nem tinha chegado ao Japão. Masuda apostou em enquadramentos cinemascope, trilha sinfônica gravada em estúdio cheio e cortes milimétricos que herdou dos thrillers policiais da Nikkatsu. A combinação transformou uma série com audiência morna em evento de filas quilométricas em Shinjuku – o termo “seichi junrei” (peregrinação de fãs) nasce ali.

Essa virada chamou a atenção da Toei, que replicou o modelo em “Galaxy Express 999” e mais tarde em “Dragon Ball Z”. A lógica persiste: quando a bilheteria de “Mugen Train” quebrou recordes em 2020, o CEO da Aniplex citou Masuda como “prova de que cinema e anime não precisam viver em mundos separados”.

Não por acaso, o anúncio de que “Yamato 3199” encerrará a saga meio século depois mantém o DNA do mestre: capítulos de TV montados em filmes para circulação internacional, como já apontamos no especial sobre a disputa entre cinema e streaming. Veja aqui.

O truque de edição que virou manual para animação moderna

Masuda não desenhava quadros; ele montava emoções. O diretor guardava um caderno com o que chamava de “pontos de virada respiratória” – recortes exatos em que o espectador inspira ou suspira. Esse ritmo, testado em faroestes urbanos com o astro Yujiro Ishihara, migrou para a animação: a explosão do Canhão de Ondas na metade do filme ocupa 17 segundos, tempo que o estudo de Masuda indicava como ideal para converter ansiedade em catarse.

Produtores jovens aplicam o mesmo cálculo a cada espada flamejante de Tanjiro ou domínio ilimitado de Gojo, tema que já discutimos ao analisar as 20 frases mais icônicas de “Jujutsu Kaisen”. A diferença é que, em 1977, não havia software para medir batimento cardíaco de público-teste; havia um cronômetro analógico e a intuição de um ex-editor de trailer.

Legado escondido: o elo entre yakuza movies, idols pop e robôs de plástico

Muito antes de empurrar naves pelo espaço, Masuda já pilotava outra indústria: a dos galãs-cantores dos anos 60, embrião do atual mercado de idols. Ele dirigiu 25 filmes com Yujiro Ishihara em apenas oito anos, introduzindo números musicais que cortavam a narrativa em clipes – tática que o anime reaproveitaria décadas depois em aberturas vendidas como singles.

Esse trânsito entre formatos o colocou na mira de marcas de brinquedo quando Yamato explodiu. Ao exigir participação nos royalties de modelos de nave antes mesmo da produção do filme, Masuda inaugurou o licenciamento cruzado que hoje sustenta kits como o Freedom Gundam “Snow Glitter”. O que parecia ganância em 1977 virou cartilha para Bandai, Hasbro e afins.

Entre colossos espaciais e becos de Tóquio, Toshio Masuda carregou uma lição que o mainstream ainda persegue: cada frame deve valer o ingresso – seja ele físico, digital ou colecionável. A ausência do diretor encerra um ciclo, mas o magnetismo de sua fórmula continua guiando heróis, androides e dinossauros gigantes que hoje brigam pela nossa atenção nas telas.

Últimas publicações