A sala de roteiristas de IT: Welcome to Derry virou um confessionário de prazos: a segunda temporada está aprovada, o relógio de gravações bate em janeiro e nenhum nome de peso foi anunciado. Ambientado em 1935, o novo arco promete mostrar como Pennywise se alimentou do medo coletivo em plena Grande Depressão nos EUA — e a HBO sabe que monstros históricos exigem rostos igualmente marcantes.
O acerto de elenco, portanto, vale mais do que a maquiagem do palhaço: ele dirá se a série pode disputar espaço de prestígio ao lado de Stranger Things ou se ficará restrita ao nicho do susto fácil. Abaixo, mostramos como a mudança temporal impõe filtros de representatividade e densidade dramática e quais atores já circulam na mesa de negociações.
1935 cobra realismo social — e diversidade que o cinema de King ignorou
Ao recuar a trama para a metade da década de 1930, a produção não pode repetir o erro dos filmes de Andy Muschietti, que limparam tensões raciais e econômicas da obra de Stephen King. Derry era um microcosmo violento onde desemprego, segregação e linchamentos emergiam como manchas diárias, e o roteiro confirmou que esses temas estarão na temporada.
Nesse contexto, escolher apenas rostos brancos conhecidos de terror soaria anacrônico. A HBO já testou a importância de um elenco plural quando reformulou símbolos de Harry Potter para anunciar ruptura visual. Agora, a quantidade de personagens negros, imigrantes e pobres não pode ser figurativa: eles precisarão conduzir subtramas sobre linchamentos no Maine, protestos de veteranos e a epidemia de fome infantil que Pennywise explorará.
Seis nomes que casam terror, drama de época e marketing global
- Jurnee Smollett (Lovecraft Country) — viveu terror racial dos anos 1950 e carrega público de super-herói graças a Aves de Rapina. Disputada para a mãe de Mike Hanlon, a cronista das violências na Derry de 1935.
- Paul Mescal (Aftersun) — indicado ao Oscar, negocia ser o professor de matemática cuja falência pessoal ecoa a crise econômica. A melancolia contida do ator irlandês renderia contraste tenso com o horror explícito.
- Storm Reid (The Last of Us) — cotada para a adolescente que testemunha linchamento no parque de diversões. A HBO aposta em seu histórico de química imediata com o público jovem.
- Brian Tyree Henry (Atlanta) — mira o papel do policial novato que vê o sistema engolir investigações sobre crianças desaparecidas. O ator domina a gradação entre humor e trauma, recurso valioso para não transformar a série em desfile de miséria.
- Anthony Starr (The Boys) — favorito interno para um fazendeiro falido que se junta ao Clube dos Perdedores original. Sua fama de vilão ajudaria a confundir o espectador sobre quem encarna o verdadeiro monstro.
- Sofia Boutella (A Múmia, Rebel Moon) — levada a teste para a artista circense européia que introduz mitologias folclóricas a Pennywise. Vem no pacote acrobacia real e currículo de ação, valendo economia em dublês.
A lacuna de um rosto veterano
Entre tantas apostas sub-35, executivos buscam um nome consagrado que “segure a sala” — função que Bill Skarsgård cumpriu nos filmes mas recusou na série. O veterano precisa atrair assinantes fora da bolha de horror e já circulam os nomes de Willem Dafoe e Angela Bassett. Curiosamente, Bassett mantém contrato aberto após o sucesso do elenco estável de 9-1-1 Nashville, o que colocou sua agenda no radar de Derry.
Seja qual for o acerto final, a HBO só tem até novembro para fechar contratos e ajustar cronogramas de figurino vintage. Cada negociação atrasada comprime o tempo de leitura de mesa e eleva o risco de um terror genérico. A escolha do elenco, portanto, não é detalhe: é o formato do medo que veremos em 2025.

