Quando os primeiros grupos de playtest deixaram o mapa de Marathon sem conseguir extrair nada — e sem vontade de tentar de novo — a equipe da Bungie percebeu que o problema não era pontual. O reboot do clássico de 1994, pensado como o próximo grande extraction shooter PvPvE, estava punindo os curiosos e empurrando os veteranos para partidas cada vez mais vazias.
Seis meses depois, o estúdio admite internamente que o jogo ficou “duro demais para quem não vive de min-max” e que o conteúdo cooperativo quase inexiste. A correção, porém, esbarra na urgência: depois dos cortes de pessoal de 2023 e sob a lupa da Sony, Marathon precisa provar viabilidade antes do próximo ano fiscal.
Testes mostraram frustração crônica já na terceira partida
Os relatórios de usabilidade mapeiam um funil alarmante: 54% dos novatos abandonam antes de completar três extrações e 71% não descobrem como craftar o primeiro módulo de respiração, item básico para sobreviver à atmosfera hostil da lua de Tau Ceti. Mesmo quem domina o tiro sofre para interpretar objetivos mal sinalizados, gerando roteiros de loot zigzagueantes que terminam em morte e perda total de equipamento.
O cenário lembra a onda de rejeição vista em jogos como Escape from Tarkov, mas com uma agravante: Marathon prometeu lore acessível e design “learn by doing”, ainda que herdasse o rigor balístico de Destiny. Na prática, o time-to-kill curto e a IA agressiva criaram uma tensão constante que só faz sentido para o espectador de streaming, não para o piloto de controle.
Dentro da Bungie, o dado que acendeu o alerta vermelho foi o pico de sessões simultâneas em playtests fechados. Em agosto, o estúdio esperava 2.000 testadores online; recebeu 680. A curva despencou para 210 em duas semanas, fenômeno parecido com o que já afetou shooters de nicho que morreram no Early Access.
Bungie vai diluir o hardcore sem abandonar o alto risco
O redesenho em andamento tem três frentes. A primeira adiciona contratos de NPCs que deixam claro o roteiro “pegar, processar, sair”, injetando objetivos opcionais de baixo risco para quem ainda não confia na própria mira. A segunda diminui o custo de reposição de armas iniciais, evitando a sensação de falência permanente a cada morte. E a terceira mexe na IA: soldados de segurança passam a avisar antes de atirar, enquanto criaturas selvagens agora preferem cercar do que matar no primeiro bote.
O time de economia também propôs um passe de temporada que libera cenários solo — resposta direta à reclamação de “PvE insuficiente”. Esse conteúdo isolado serve como tutorial disfarçado, mas conserva a progressão global do personagem. A lógica ecoa decisões recentes de estúdios como a Remedy, que transformou Control Resonant em “plataforma viva” com modos paralelos.
Fontes próximas afirmam que a Bungie cogitou um modo “extrair seguro”, onde a morte só zera a recompensa bônus. A ideia dividiu opiniões internas: veteranos temem diluir o DNA de alto risco, enquanto a direção de produção enxerga no recurso a ponte para quem jamais tocaria em Escape from Tarkov.
Pressão externa cresce enquanto o mercado de extraction shooters satura
A pausa forçada de Marathon acontece num momento em que o subgênero lota vitrines. Entre Hyenas, The Finals e o projeto de Battlefield focado em saque, a janela de novidade se fecha rápido. Dentro da própria Sony, Marathon disputará marketing com apostas mais palatáveis, como a recente parceria do Astro Bot com a LEGO, que fala para um público oposto ao do shooter hardcore.
Analistas de mercado lembram que a Bungie foi comprada para oferecer expertise de serviço contínuo a toda a família PlayStation. Se Marathon chegar claudicante, o prejuízo transcende a franquia: coloca em xeque a promessa de que o estúdio ainda sabe formatar loops de diversão de primeira viagem — algo que Halo fez em 2001 e Destiny repetiu em 2014.
O cronograma interno aponta um novo playtest aberto para março. Se a retenção não dobrar, Marathon corre risco de virar estudo de caso sobre como obedecer a todas as planilhas de engajamento e, mesmo assim, esquecer a regra número um de qualquer jogo de tiro: deixar o gatilho saboroso antes de cobrar a conta.

