Nem Hello Kitty, nem Cinnamoroll: quem abriu a vitrine da Sanrio na New York Comic Con foi Lloromannic, a dupla demoníaca Berry e Cherry que mistura chifres e babados pastel. O pacote de estreia — uma mochila Loungefly com zíper invertido e dois Funko POP! exclusivos — chega em tiragem restrita e já provocou fila virtual antes mesmo de a convenção começar.
O movimento expõe a virada de chave da Sanrio: levar ao mercado norte-americano um personagem deliberadamente “spooky-cute”, mirando fãs que envelheceram junto com o kawaii clássico e agora colecionam itens limitados. A jogada repete a lógica de escassez que transformou o set de Sailor Moon em troféu na mesma feira, mas desta vez com o selo irreverente de quem sempre vendeu doçura.
Escassez deixa de ser exceção e vira motor da linha “spooky-cute”
Segundo licenciados ouvidos na preparação da NYCC, a tiragem da mochila não passa de 1.200 peças, enquanto os POP! de Berry e Cherry ficam em 3.000 unidades cada. Em termos de Funko, isso é quase nada: um lote regular costuma superar 15 mil unidades. O resultado foi previsível — revendedores listaram o combo por até US$ 220 no eBay antes da abertura dos portões.
O formato copia a “escassez calculada” que a indústria de anime vem testando desde o sucesso de Sailor Moon e da coleção de raridades do Studio Ghibli. O diferencial da Sanrio é alinhar duas máquinas de desejo simultâneas: o lifestyle fashion da Loungefly, que conversa com público adulto, e o sistema de chase figures da Funko, que ativa FOMO em velhos conhecidos de convenção.
Na prática, cada item carrega número de série gravado na etiqueta, detalhe inexistente na maioria das colaborações kawaii. Esse traço transforma a aquisição em investimento, não só lembrança — comportamento que a Sanrio pretende ampliar em 2024 com drop trimestral, já negociado com ao menos mais duas fabricantes de colecionáveis premium.
Berry e Cherry revelam a face “proibida” que a Sanrio evitava exportar
Lloromannic surgiu nos anos 2000 como antítese de Cinnamoroll: mesmos traços arredondados, mas com rabo de diabo e história de gêmeos presos em outra dimensão. O material ficou relegado ao Japão por medo de reação negativa nos Estados Unidos pós-9/11, quando qualquer alusão a inferno ou demônios virava pólvora cultural.
Duas décadas depois, o timing mudou. Geração Z transformou Halloween em maratona estética no TikTok, e o “pastel goth” virou passaporte de marca. Análises de mercado da própria Sanrio apontam crescimento de 38 % no segmento “spooky-cute” somente em 2022, impulsionado por franquias como Wednesday e licenças da Hot Topic.
Por que agora?
O esgotamento de narrativas para Hello Kitty nos EUA abriu espaço para personagens menores ocuparem nichos específicos. Enquanto a Disney empurra o clássico “vilãs glam” para manter interesse adulto, a Sanrio aposta em antagonistas fofos que não negam sua essência kawaii. Berry e Cherry chegam como teste-piloto: se venderem fora da bolha colecionadora, a empresa deve liberar personagens ainda mais obscuros, como Kuromi e Baku, em coleções limitadas.
A tática conversa também com a maré de nostalgia que reaqueceu o mercado de anime descartável. Depois que a Netflix recuperou Dragon Ball clássico e a Marvel citou One Piece em HQ do Homem-Aranha, ficou claro que referências de nicho agora movem audiência mainstream. Sanrio surfa a mesma onda com a confiança de quem conhece o poder de um bom laço cor-de-rosa — mesmo quando ele vem acompanhado de um par de chifres pretos.
No fim, a mochila numerada e os POP! de Berry e Cherry valem mais do que o PVC e o poliéster que os compõem: sinalizam a chegada oficial de um novo dial do kawaii às prateleiras norte-americanas. Se a fila de pré-venda servir de termômetro, os demônios fofos não só conseguirão lugar ao sol, mas podem empurrar a Sanrio para um território onde a doçura e o susto convivem — e vendem — no mesmo pacote colecionável.

