Sem aviso prévio, a Bandai divulgou nesta semana a primeira imagem da nova action figure inspirada no mobile armor Hashmal, o monstro metálico que quase exterminou órfãos e soldados em Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans. A peça, que atualiza um modelo lançado em 2016, troca o plástico simples por liga metálica, acrescenta efeitos de explosão translúcidos e empilha articulações suficientes para recriar o massacre visto no anime.
O timing não é acidente: em outubro, a série completa dez anos de exibição original, e a fabricante decidiu começar a festa pelo antagonista mais sinistro – não pelo herói Barbatos. A leitura interna é clara: quem manteve a marca lucrativa na última década foram adultos que abraçaram a fase sombria de Gundam, não crianças em busca de robôs coloridos.
Metal e cicatrizes revelam a nova régua de preços (e ambição)
A figura chega às prateleiras japonesas em abril de 2024, dentro da linha Metal Robot Spirits, com estimativa de 17 cm de altura e preço inicial de 15.400 ienes – quase o dobro do kit anterior. O corpo traz partes de zamac, camada de pintura fosca para simular o desgaste de batalha e opcionais que recriam os drones entomóides do Hashmal, nunca antes incluídos em escala comercial.
Ao repaginar o vilão, a Bandai corrige dois pontos que colecionadores reclamavam desde 2016: ausência de articulação no pescoço alongado e lacunas na blindagem traseira, responsáveis pelo “vazio” que entregava o chassi oco. Desta vez, placas extras escondem mecanismos internos e mantêm o peso distribuído, permitindo poses agachadas sem base de apoio.
A investida dialoga com o movimento premium que já alçou estátuas como a de Slan, de Berserk, vendida a R$ 10 mil. Ao usar metal, efeitos luminosos nas turbinas e um manual de 40 páginas sobre a Calamity War, a Bandai reclassifica o Hashmal: de “brinquedo caro” para “peça de exposição”.
Iron-Blooded Orphans volta ao holofote dez anos depois e expõe aposta adulta
Quando estreou em 2015, Iron-Blooded Orphans quebrou um tabu na franquia ao tratar trabalho infantil e servidão corporativa. O Hashmal, IA de extermínio proibida há três séculos, simbolizava exatamente esse trauma histórico. Trazer o monstro de volta em 2024, antes de qualquer anúncio de remake ou continuação, indica onde a Bandai enxerga valor: na estética desesperadora que diferencia o arco dos demais universos Gundam.
Internamente, executivos admitem que edições comemorativas focadas nos protagonistas já não produzem picos de venda. O consumidor pós-pandemia migrou para nichos colecionáveis que carregam narrativa forte e design agressivo – a mesma lógica que levou a Pokémon Company a lançar peças de ouro maciço e que empurrou a Netflix a buscar herdeiros “dark” para Stranger Things. A Bandai, portanto, prefere testar o apetite pelo lado obscuro agora, antes que a bilheteria do live-action de Gundam (em produção com Jordan Vogt-Roberts) redefina o público-alvo global.
Olho no colecionador, não no novato
O detalhe que passa despercebido é a tiragem limitada a 9.000 unidades – metade da linha regular. Em vez de espalhar o produto para popularizar a marca, a Bandai cria escassez programada que valoriza o item no mercado secundário e financia, com margens maiores, moldes inéditos para 2025. Se a estratégia vingar, próximos anúncios devem seguir a mesma lógica: poucos estoques, acabamento premium e foco em antagonistas que marcaram trauma no enredo.
No fim, o Hashmal 2024 é menos um presente nostálgico e mais um laboratório bilionário: ele testa até onde vai a disposição do fã pagar por memórias desconfortáveis. Se esgotar em horas – como já se especula nas comunidades asiáticas – Bandai terá sinal verde para a temporada mais sombria (e lucrativa) da história de Gundam.

