Pouco antes de anunciar os reforços de outubro, a Microsoft soltou a lista de cortes do Xbox Game Pass e deixou cair uma bomba: “It Takes Two”, vencedor do The Game Awards 2021, some do catálogo no dia 15. O jogo cooperativo vinha sendo peça-chave da vitrine familiar do serviço e, para muitos, era o motivo de manter a mensalidade em dia.
A debandada não para aí. Outros sete títulos – entre eles “Eville”, “The Somnium Files” e “Turnip Boy Commits Tax Evasion” – também expiram na mesma data. O calendário reposiciona o Game Pass às vésperas da Black Friday e reforça a pergunta que incomoda o assinante: até que ponto vale a pena confiar a biblioteca inteira a um modelo que gira sem aviso longo?
Rotação acelerou 25% em 12 meses e muda o valor percebido do serviço
Levantamento interno da comunidade TrueAchievements contabiliza 102 remoções em 2024, ritmo 25% maior que o de 2023. A justificativa oficial segue a cartilha: contratos por tempo limitado. Mas o salto coincide com a estratégia de encorpar o catálogo próprio – impulsionada pela compra da Activision Blizzard – e reduzir gastos com royalties de terceiros.
Para o consumidor médio, porém, o resultado é imediato: menos tempo para terminar histórias longas e nenhuma garantia de que títulos premiados voltem. Foi exatamente o que ocorreu com “Red Dead Redemption 2”, que saiu, retornou oito meses depois e tornou-se vitrine de marketing duas vezes. Funciona para a Microsoft, não necessariamente para quem maratona aos poucos.
O jogo do ano vira demonstração temporária – e isso afeta compra física
“It Takes Two” ilustra o efeito psicológico da rotatividade. Quando o GOTY entra, o assinante sente que tudo estará ao alcance. Ao sair, descobre que era aluguel disfarçado de posse. A Electronic Arts, dona da marca, mantém o título no EA Play – serviço que, por sua vez, faz parte do Game Pass Ultimate. Ainda assim, apenas quem paga o plano mais caro continuará com acesso, o que, na prática, segmenta a base em dois degraus e empurra upgrades.
Essa dança reanima o varejo físico no Brasil. Redes como Americanas e Magazine Luiza registraram aumento de 17% na procura pelo disco de “It Takes Two” na primeira semana pós-anúncio, segundo dados de distribuição obtidos pelo portal. É a mesma lógica que move a corrida por códigos em plataformas fechadas: quando a janela fecha, nasce um mercado paralelo para quem não quer perder acesso.
Pressão sobre a biblioteca first-party cresce com a chegada de “Call of Duty”
Nos bastidores, desenvolvedores contratados pela Microsoft relatam cronogramas mais apertados para liberar novos conteúdos. A ordem é clara: cada saída relevante precisa de uma entrada de igual peso na mesma quinzena. Por isso, o holofote agora aponta para a data de inclusão do próximo “Call of Duty”, já prometido no Day One após a conclusão da compra da Activision.
O desafio, como disparou Ken Kutaragi ao criticar gastos bilionários sem ideias frescas, é entregar renovação sem virar refém de blockbusters cíclicos. O Game Pass, que começou como vitrine de descobertas indie, aposta cada vez mais em nomes gigantescos para tapar buracos de catálogo. Enquanto isso, o usuário passa a monitorar a seção “Jogos que deixarão em breve” com mais atenção do que o feed de novidades.
No fim, o recado é simples: quem quiser completar “It Takes Two” a tempo tem menos de duas semanas. E a saída repentina de um Jogo do Ano reforça a lição que o streaming de filmes já ensinou: nenhum título, por premiado que seja, está a salvo da planilha de custos.

