O primeiro andar é só aperitivo: frango de dragão grelhado. No 20º, a promessa de um cozido de mantícora. E no topo da torre, a única porção que realmente importa — a vida da irmã do protagonista. É com esse cardápio de combate e afeto que Tower of Broth, novo roguelike independente desenvolvido por um estúdio paulistano, tenta temperar a sobrevivência hardcore de Sword Art Online com a inventividade gastronômica de Delicious in Dungeon.
O título, anunciado ontem em um teaser relâmpago na Summer Next Fest, já nasce com comparações inevitáveis. Não por oportunismo, mas porque escolhe a dedo dois fenômenos que voltaram a esquentar o algoritmo: a estreia recente do anime de Delicious in Dungeon na Netflix e o retorno do suspense de hiato longo em franquias como Konosuba. A leitura do estúdio é clara: há público disposto a morrer, tentar de novo e ainda levar marmita para a batalha.
Roguelike incorpora estratégia culinária como mecânica central
Ao contrário de clones genéricos que só penduram skin de anime em runas procedurais, Tower of Broth faz da cozinha sua árvore de habilidades. Cada monstro derrotado vira ingrediente que altera o meta do andar seguinte: asas flamejantes garantem buff de velocidade, enquanto caldo de slime reduz o cooldown dos feitiços, mas aumenta a chance de envenenamento se consumido sem tempero.
Esse risco calculado ajuda a explicar por que o jogo chamou atenção de streamers de speedrunning antes mesmo da demo pública. Segundo a equipe de desenvolvimento, a combinação de receita errada com RNG pode acelerar ou quebrar completamente uma corrida — tentação perfeita para desafios community-driven que fazem roguelikes explodirem no Twitch.
Labirinto vertical recria a angústia de Aincrad sem copiar o enredo
A ambientação é uma torre de cem andares que vibra nostalgia em quem cresceu vendo Kirito derrubar chefes em Sword Art Online. Mas a semelhança para aí. Cada piso de Tower of Broth muda layout e bioma a cada nova vida, trocando metas alinhadas por “chefes de despensa” que afetam a própria economia de ingredientes. O chef-orc do 40º andar, por exemplo, tranca a despensa se o jogador entrar com estoque cheio, forçando craft improvisado e empurrando a corrida para uma rota alternativa.
Na prática, o design faz o jogador negociar qual luta vale a pena — algo que o anime raramente permitia, pois os andares de Aincrad eram estáticos. Essa sensação de urgência orgânica responde a uma crítica antiga de fãs, que queriam ver personagens de SAO lidando com recursos finitos em vez de puro grind de nível.
Lançamento no Steam mira nicho de fãs de anime e speedrunners
Marcado para Early Access no início de 2025, o projeto será 100% financiado por vendas iniciais, sem publisher. O estúdio pretende atualizar mensalmente com novos andares, sempre vinculados a eventos de temporada do streaming — Halloween traz cogumelos alucinógenos, enquanto verão desbloqueia receitas de churrasco urbano.
É uma estratégia semelhante à de minisséries de horror que ocupam slots curtos, como apontado no especial Terror relâmpago: como as minisséries de anime dominam o Halloween. A lógica é manter pico de interesse recorrente sem precisar despejar conteúdo massivo, algo que Hades e Dead Cells validaram no passado.
Por ora, a demo limitada mostra apenas os dez primeiros andares, mas já deixa clara a ambição: misturar o conforto do prato favorito com o pânico de perder tudo num descuido. Se funcionar, Tower of Broth pode inaugurar uma fase em que roguelike vira, literalmente, degustação — e onde cada morte amarga abre apetite para a próxima rodada.

