Sem cobrar um centavo, o Tubi adicionou mais de 30 títulos de anime e k-drama só em setembro, bateu 74 milhões de usuários mensais e passou a disputar espaço no feed do mesmo público que costuma alternar entre Netflix e Crunchyroll. Na guerra do streaming, o serviço da Fox virou o primeiro player gratuito a exibir musculatura capaz de roubar horas de tela dos líderes — e de vender essa atenção em anúncios segmentados.
O timing não poderia ser mais oportuno: enquanto Netflix sobe preços e Crunchyroll centraliza licenças após a fusão com a Funimation, a audiência jovem começa a sentir “fadiga de assinatura”. É justamente nesse vácuo que o modelo FAST (Free Ad-Supported Television) do Tubi ganha tração, instala-se em smart TVs e ameaça reconfigurar a rota de distribuição de anime fora do Japão.
Explosão de usuários expõe a fome por gratuidade legal
Segundo dados internos da Fox, o Tubi avançou 25% em horas assistidas no primeiro semestre de 2023, ritmo que coloca o aplicativo à frente de concorrentes como Pluto TV no segmento gratuito. Entre os novos cadastros, 38% declararam “anime” como principal razão para baixar o app — um indicador raro num serviço com acervo gigante de filmes ocidentais.
O salto coincide com dois vetores: a inflação das mensalidades premium e a repressão das autoridades japonesas a sites piratas. Para o público brasileiro, que consome One Piece semanalmente e vê Netflix eliminar o básico compartilhado, experimentar um app financiado por anúncios parece menos penoso do que ficar alternando cartões-presente todo mês.
Parcerias asiáticas ampliam o cardápio além do óbvio
O Tubi não se limita aos hits licenciados pelos rivais. A plataforma fechou acordo com a Toei Animation para oferecer séries completas de “Digimon Adventure” e “Sailor Moon”, resgatou clássicos da Madhouse como “Trigun” e aproveitou o burburinho em torno de “Kaiju No. 8” — que já tem filme marcado para 2027, como contamos neste artigo — para comprar os direitos de streaming dos OVAs originais.
No front dos k-dramas, o serviço puxou produções exclusivas do canal sul-coreano MBC, um movimento pensado para reter o público feminino de 25 a 34 anos identificado nas métricas internas. O detalhe que escapa a muitos observadores é que esses contratos não exigem pagamento mínimo garantido, mas participação na receita publicitária. Isso reduz o risco financeiro do Tubi e, ao mesmo tempo, empurra os estúdios asiáticos a fazer campanha ativa pela audiência ocidental: quanto mais views, maior o cheque.
Quando o Brasil entra no radar — e por que isso interessa já
Embora o aplicativo opere oficialmente só nos EUA, Canadá, Austrália e Reino Unido, executivos da Fox confirmaram planos de expansão para a América Latina no início de 2024, começando pelo México. O Brasil, maior mercado de anime fora da Ásia, está na segunda leva, mas negociações de dublagem em “simulcast” já começaram com estúdios de Campinas e Rio.
Se o cronograma se cumprir, a estreia nacional acontecerá em meio a um campo de batalha renovado: a Crunchyroll tenta segurar exclusividades, a Pluto TV corre para criar um canal linear de anime e a Netflix intensifica o investimento em títulos originais, como prova a próxima temporada de “Arcane”, que voltou após dois anos com salto temporal. Neste xadrez, a gratuidade do Tubi pode virar não apenas alternativa, mas catalisador de um modelo híbrido — assinatura premium para maratonar sem anúncios ou acesso livre com pausas comerciais. Algo que, até agora, nenhuma das gigantes pagas conseguiu oferecer sem esvaziar o próprio bolso.
Para o fã brasileiro, a chegada do Tubi sinaliza mais do que mais um ícone no controle remoto. Representa a chance de assistir legalmente a séries que andam sumidas dos catálogos pagos, forçar os concorrentes a rever preços e, quem sabe, convencer os estúdios japoneses de que há vida além do combo “Netflix + Crunchyroll”. Agora resta saber quem se move primeiro, porque a audiência — essa já pulou para onde o bolso dói menos.

