Nem bem o Webtoon de Star Trek chegou ao topo dos rankings da plataforma e a roteirista responsável, Elyse Russell, já iniciou conversas para repetir a dose com Dragon Age, RPG da BioWare que aguarda o adiamento infinito de Dreadwolf. O movimento, confirmado pela própria autora em evento fechado para criadores, acendeu o radar de investidores porque indica que franquias AAA encontram nos quadrinhos verticais um atalho mais barato — e rápido — para manter o hype vivo.
Nos bastidores, o pitch foi recebido como “low-risk, high-noise”: a editora não paga pelo motor gráfico caríssimo de um game e a Electronic Arts ganha vitrine diária no celular, canal que virou ringue de fandoms desde que Cyberpunk: Edgerunners provou que a simples lembrança de uma IP pode levantar vendas anos depois do lançamento original. Se a negociação vingar, será a primeira adaptação oficial de Dragon Age em formato scrolling, formato que fez de Lore Olympus uma obsessão global.
Adaptação quer ocupar o vácuo pré-Dreadwolf e testar novas rotas de lore
A Electronic Arts jurou que Dragon Age: Dreadwolf sairia até março de 2025, mas ninguém da BioWare ousa cravar data desde os cortes de pessoal deste ano. Enquanto isso, a comunidade sofre com silêncio de rádio sobre o enredo — situação parecida com a que Star Trek enfrentava antes de Russell entregar a série mobile focada em missões paralelas da Frota Estelar. O quadrinho vertical, portanto, surge como solução para dois problemas: manter a chama acesa e validar ideias de roteiro sem gastar fortuna em CGI.
Fontes ligadas à Webtoon dizem que a proposta envolve capítulos semanais ambientados entre Inquisition e o próximo jogo, com liberdade para explorar personagens secundários como Dorian Pavus. Isso reduz o risco de contradição com o canônico e ainda mede a temperatura do público para possíveis DLCs. A mesma estratégia fez a alegria da Nintendo com Animal Crossing — tema que comentamos no artigo sobre o lançamento-relâmpago de um jogo “cozy” que antecipa o sucessor do Switch.
Webtoon vira laboratório de blockbusters e o Brasil entra no mapa-teste
Desde 2022, a plataforma sul-coreana deixou de ser vitrine indie e passou a caçar IPs de peso: Arkane, Assassin’s Creed e até BTS ganharam spin-offs em rolagem vertical. O diferencial está no alcance: o Brasil figura entre os cinco maiores mercados do app, com pico de 10,4 milhões de usuários ativos mensais segundo relatório interno vazado no trimestre passado. Para editoras, isso significa pesquisa de audiência em tempo real: cada “like” vira métrica para futuros bonecos, séries live-action ou jogos-serviço.
Não por acaso, a Crunchyroll testou a mesma lógica ao exibir os sucessores de Haikyu!! e abrir caminho para animes de esportes ainda pouco explorados, como analisamos em reportagem recente. O que muda agora é que roteiristas com selo Hollywood, caso de Russell, negociam direto com a plataforma, sem passar por intermédios de editoras tradicionais. Resultado: timing mais agressivo e histórias que podem interagir com campanhas de marketing em redes sociais em questão de horas.
Um duelo silencioso com a Netflix
A investida em Dragon Age também responde, ainda que indiretamente, ao apetite da Netflix por domar franquias de games. A gigante do streaming engordou seu arsenal com Castlevania, Arcane e a volta programada de Edgerunners para 2027. Ao fincar bandeira em Webtoon, a EA abre uma frente onde a Netflix ainda engatinha, já que o serviço prioriza animações de alto custo e não consegue distribuir capítulos semanais na mesma cadência de um webcomic.
Se confirmada, a série de Dragon Age entrará em produção no segundo semestre e deve estrear antes do primeiro teaser de Dreadwolf. Para o público brasileiro, acostumado a esperar traduções tardias dos livros da franquia, a novidade traz esperança de lançamento simultâneo em português — política que a Webtoon adotou com Star Trek e que pode virar arma decisiva nessa batalha por atenção de tela vertical.

