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Ex-Ghibli libera filme para streaming nos EUA, mas adia Blu-ray para 2027 e testa novo jogo de receita no anime

O longa-metragem “The Imaginary”, dirigido pelo veterano de Studio Ghibli Yoshiyuki Momose, já pode ser comprado ou alugado em lojas digitais dos Estados Unidos — mas quem quiser o disco para a estante só vai colocá-lo lá em janeiro de 2027. A distribuidora norte-americana não errou a data: a janela de quase quatro anos entre o streaming e o Blu-ray faz parte de um experimento comercial que coloca o título como cobaia de um novo degrau de monetização para animações fora do Japão.

A aposta inverte a lógica histórica do home video, segundo a qual o suporte físico financia a largada do filme. Agora, primeiro vem o retorno rápido e amplo do VOD, e apenas depois a edição colecionável, turbinada pelo valor de escassez. No meio do caminho, quem banca os custos de produção é o bolso do fã impaciente — e o mercado global observa para saber se o modelo pode salvar médios estúdios num cenário em que blockbusters engolem as salas de cinema.

Janela de quatro anos mira o bolso do colecionador, não do público geral

De acordo com executivos ligados à negociação, o cronograma inusitado surgiu após projeções internas mostrarem que a receita de Blu-ray fora do primeiro ano já supera, em média, o faturamento inicial quando o produto ganha status de item “de nicho”. A nova aposta, portanto, não vê atraso, mas sim oportunidade: deixar amadurecer uma base de fãs disposta a pagar caro — às vezes acima de US$ 60 — por um pacote recheado de extras e tiragem limitada.

Na prática, a estratégia converte o Blu-ray em um crowdfunding tardio. Enquanto isso, o streaming amortiza custos de licenciamento e serve de vitrine mundial. O raciocínio ecoa outras experiências recentes, como a guerra de licenças que barrou o set de Macross na Lego: produtos de alto valor agregado deixam de mirar volume e passam a mirar margens.

Pedigree Ghibli e selo Ponoc: por que “The Imaginary” vale a aposta

Yoshiyuki Momose não é um nome qualquer. Animador chave em “A Viagem de Chihiro” e storyboarder de “O Castelo Animado”, ele levou para o Studio Ponoc — fundado por dissidentes do Ghibli — a filosofia de personagens emotivos em cenários quase táteis. “The Imaginary” usa essa assinatura para contar a história de um menino que divide a mente com uma amiga invisível, mesclando fantasia delicada com tons sombrios mais próximos de contos europeus que do folclore japonês.

O resultado já havia empolgado críticos em festivais: direção de arte analógica, espaço amplo para a trilha orquestral e montagem que dispensa o ritmo frenético de shonens televisivos. Com isso, o filme atrai exatamente o público colecionador que costuma bancar artbooks, edições de luxo e LPs — segmento que, segundo levantamento interno do estúdio, responde por até 38% do faturamento pós-lançamento de “Mary and the Witch’s Flower”, primeiro sucesso da casa.

Brasil observa de longe, mas cenário local pode acelerar janelas

Por enquanto, “The Imaginary” segue sem distribuidora confirmada na América Latina. Agentes ligados ao mercado apontam dois entraves: o câmbio que encarece o licenciamento de catálogos menores e o volume crescente de estreias simultâneas de blockbuster de streaming, como evidenciado pela recente joia de 49 minutos que furou a bolha na Netflix (veja aqui). Ainda assim, o vácuo cria espaço para players locais repetirem o modelo inverso: primeira mão nos cinemas independentes e lançamento digital encurtado, estratégia que já funcionou com “Belle” e “Blue Giant”.

Até lá, a curiosidade sobre o futuro do anime físico segue em aberto. Se “The Imaginary” provar que a saudade faz o bolso crescer, outras produtoras devem anunciar janelas longas também — e o colecionador brasileiro, acostumado a importar Steelbooks, talvez se veja pagando caro pela experiência que, ironicamente, começou a um clique de distância.

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