Quando a Warner confirmou que Greig Fraser não assinará a fotografia de “The Batman – Parte 2”, a notícia atravessou a bolha cinéfila como um batarang afiado: o australiano, premiado por “Duna”, era peça-chave da atmosfera sufocante que Matt Reeves imprimiu em 2022. Sem ele, a continuação terá de se reinventar naquilo que mais a diferenciava dos Batmen anteriores — o olhar de câmera que transformou cada beco de Gotham em personagem.
O choque vai além do backstage. A saída de Fraser, prioridade em “Duna: Messias”, encerra uma sequência de colaborações que vinha desde “Rogue One” e leva consigo o tratamento de luz quase analógico que muitos fãs já tratavam como “a era «tungstênio e chuva»”. A mudança acontece justamente quando a DC tenta reposicionar seus universos diante do reboot comandado por James Gunn, elevando a discussão: o que permanece de um filme quando sua identidade visual some?
Troca de fotógrafo mexe no DNA de Gotham
Fraser não era apenas operário da lente. Ele ajudou Reeves a criar um mood que misturava neon sujo, grão deliberado e profundidade de campo curtíssima, estratégia que imitava a claustrofobia dos quadrinhos noir. Bastou um filme para o estilo entrar no imaginário pop — do marketing viral da capa vermelha ao filtro escurecido que virou moda em conteúdos de fãs.
Ao perder essa assinatura, “Parte 2” terá de decidir entre duas rotas: manter o receituário com outro diretor de fotografia ou virar a chave estética, como Christopher Nolan fez ao trocar Wally Pfister por Hoyte van Hoytema no pós-“Cavaleiro das Trevas”. Fontes próximas à produção indicam que Reeves prefere a ruptura, buscando nomes que trabalhem cores contrastadas e texturas mais nítidas — movimento que, se confirmado, enterrará de vez a fase “bladerunner gótica” que tanto agradou ao público.
O impacto comercial também pesa. Jogos, graphic novels e até linhas de brinquedos baseadas no primeiro filme usaram o palette frio criado por Fraser. Uma guinada visual exigirá novos protótipos, atrasando licenças que já contavam com a estreia, agora empurrada para 2026. A Marvel, por exemplo, resolveu isso de outra forma: já abriu os spoilers de “Avengers: Doomsday” com anos de antecedência para alinhar parceiros; a DC, mais fechada, corre contra o tempo para ajustar catálogos que dependem da paleta final.
Reeves busca novo tom para sobreviver ao reboot de James Gunn
Nos bastidores da DC Studios, “The Batman” virou uma rara ilha de autonomia depois que Gunn e Peter Safran assumiram a reconstrução do selo. O diretor tem liberdade de Elseworld, mas precisa provar relevância enquanto o novo canône começa em “Superman: Legacy” (2025). Uma linguagem visual inédita vira trunfo político: diferencia o filme de Robert Pattinson da futura versão do herói prometida por Gunn — e reforça apelo de franquia paralela.
Há, no entanto, um dilema de expectativa. Fãs que abraçaram o clima de detetive setentista querem mais do mesmo; executivos preferem suavizar a fotografia para ampliar público juvenil, já que o PG-13 do primeiro longa quase escorregou para 16 anos. Sem Fraser, Reeves ganha autorização implícita para recalibrar a obra sem parecer infiel a parcerias antigas.
O que entra no lugar do “tungstênio e chuva”
- Testes iniciais exploram sensores de alta latitude, permitindo contrastes fortes sem perder detalhes em cenas noturnas.
- Reeves pediu aos designers que preparem duas versões de Gotham: uma úmida, próxima do original, e outra com luzes vibrantes que lembrem “Batman: A Série Animada”.
- A Warner quer que o novo visual dialogue com as séries derivadas, como “Pinguim”, evitando saltos estéticos bruscos dentro do mesmo universo.
A escolha do substituto de Fraser deve sair até agosto, antes da construção de cenários em Leavesden. Nomes como Linus Sandgren (“La La Land”) circulam nos fóruns, mas a ordem é manter silêncio até a assinatura para evitar desgaste público, estratégia oposta ao hype calculado revelado no caso Pom Klementieff na Marvel.
Fato é que, sem Greig Fraser, “The Batman – Parte 2” não poderá viver de repetição. Ao mesmo tempo em que frustra quem venerava a fotografia do primeiro longa, a substituição abre espaço para Reeves ampliar o horizonte criativo e, quem sabe, garantir que seu Batman continue relevante num tabuleiro dominado pelos reboots de James Gunn. Para Gotham, começa outra noite — mas, desta vez, ninguém sabe de onde virá o primeiro raio de néon.

