Foi preciso menos de seis semanas para que o lobo-gigante de “Princess Mononoke” corresse até a porta da LEGO. O protótipo criado no programa colaborativo LEGO Ideas atingiu os 10 mil apoios exigidos e passa, agora, para a mesa de análise da fabricante dinamarquesa — etapa que pode transformá-lo no primeiro set oficial do Studio Ghibli.
O placar surpreende porque a companhia de Hayao Miyazaki nunca liberou peças de montar licenciadas, apesar de uma legião de adultos colecionadores dispostos a pagar caro. A inesperada guinada se soma ao recente anúncio de uma luminária retrô de “Kiki’s Delivery Service” e indica que o cofre de licenças do estúdio abriu uma fresta inédita.
10 mil cliques derrubam um tabu que dura desde “Meu Amigo Totoro”
O LEGO Ideas, plataforma que já impulsionou sets de “Star Wars” a “Seinfeld”, segue um ritual simples: proposta publicada, 60 dias para alcançar 10 mil votos, e — só então — avaliação interna sobre viabilidade de produção. A marca “Princess Mononoke – Spirit Forest” cruzou a meta em ritmo de best-seller, dez dias antes do prazo máximo, apoiada por fãs que compartilham instruções caseiras de Ghibli no Reddit há anos.
O feito se torna ainda mais simbólico quando lembramos que, em 2021, um projeto de “Meu Amigo Totoro” morreu na praia com menos de 4 mil votos. Na época, bastou um e-mail educado do estúdio para esfriar a onda. Agora, sem veto aparente, a LEGO confirma que abrirá a revisão de primavera (abril a junho) com o diorama ambientalista de Ashitaka e San na fila de prioridade.
O que está em jogo para Ghibli, LEGO e o mercado colecionador
Para a LEGO, a oportunidade é clara: acessar um catálogo que movimenta milhões em bilheteria, streaming e turismo temático — sem brigar por preço com Disney ou Marvel. Para o Studio Ghibli, a conversa é mais delicada. O estúdio freou licenças por décadas para proteger a imagem artesanal, mas a maré mudou. Primeiro, os processos contra sites de pirataria mostraram que só o controle judicial não basta; agora, itens premium viram ferramenta de reputação e receita internacional.
Executivos próximos ao parque Ghibli Park, em Aichi, enxergam o set LEGO como brinde institucional perfeito: portátil, educativo e, principalmente, oficial. O timing ainda conversa com a estratégia de “produtos-farol” lançada este ano — daí a lamparina vintage de “Kiki’s Delivery Service”, que esgotou no Japão em 48 horas. Caso a LEGO aprove o kit, ele chega às prateleiras em 2025, coincidindo com a expansão do parque e com o provável relançamento 4K de “Princess Mononoke”.
Próximas datas que podem selar o acordo
- Jun/2024 – LEGO encerra a análise técnica e de marketing.
- Set/2024 – Anúncio público dos projetos aprovados na convenção LEGO World.
- Jan/2025 – Pré-venda global, com tiragem inicial de 150 mil unidades estimadas.
- Abr/2025 – Lançamento oficial alinhado ao 28º aniversário do filme no Japão.
Se der certo, não será apenas mais um box de pecinhas na estante otaku. Será o momento em que a floresta protegida por San encontrou uma brecha segura no mundo corporativo dos brinquedos — e mostrou que, às vezes, basta um clique bem colocado para mover montanhas de tijolinhos.

