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Roteiro inédito revela a Princesa Mononoke que Miyazaki matou para salvar o filme

O Studio Ghibli acaba de abrir ao público um tratamento de roteiro datado de 1994 que desmonta a imagem de produção “coesa” em torno de Princesa Mononoke. No texto, a protagonista atende por Yan, veste armadura de couro e não há lobo gigante algum: a história corria na Europa medieval e girava em torno de um pacto com fadas da floresta. O documento, exibido nesta semana em Tóquio, mostra que Hayao Miyazaki descartou 70 páginas já aprovadas e reiniciou tudo a oito meses do início da animação.

A revelação chega num momento em que o estúdio tenta modernizar seu acervo de comunicação — e limpar a poeira antes da possível indicação de The Boy and the Heron ao Oscar. Mais do que curiosidade, o material evidencia o método destrutivo do diretor: reescrever do zero não foi exceção, mas regra silenciosa que ajudou a esculpir a assinatura visual que hoje define o Ghibli.

Roteiro perdido troca lobos por fadas e coloca a trama na Inglaterra

Segundo a curadora Rieko Izutsu, o texto batizado de “Mononoke-Hime α” foi resgatado durante a digitalização de arquivos para a nova exposição permanente no museu do estúdio. Nele, o “mononoke” não é entidade espiritual japonesa, mas uma maldição trazida por mineradores que profanam um bosque britânico. O herói Ashitaka nem sequer existia; o conflito moral era carregado por um caçador chamado Roland que, ao final, sacrificaria a própria humanidade para deter o avanço industrial.

Ao comparar esse enredo com o filme lançado em 1997, salta aos olhos o ponto de virada: Miyazaki percebeu que não conseguiria discutir a relação entre tecnologia e natureza usando metáforas importadas. A decisão de reposicionar a narrativa no período Muromachi e inserir conceitos do xintoísmo foi tomada após uma viagem relâmpago a Yakushima, a mesma ilha que inspirou a floresta de Sansa. O roteiro europeu foi então trancado numa gaveta, onde ficou por 29 anos.

Reescrita radical virou política interna no Ghibli

O susto financeiro foi real. Contadores do estúdio, ainda liderados por Toshio Suzuki, estimaram perda de 40 milhões de ienes em material de pré-produção jogado fora: layouts, cenários e até maquetes físicas precisaram ser refeitos. Mas o choque deu origem a uma regra não escrita que sobrevive até hoje: nenhuma ideia é cara demais para ser abandonada se não servir ao tema central. A mesma premissa manteve Miyazaki no comando total de O Castelo Animado, quando ele substituiu dragões mecânicos por demônios calcificados a menos de cinco meses da estreia.

Impacto nos sucessores e na indústria

A liberação do roteiro coincide com o momento em que ex-discípulos do diretor, como o time por trás do épico animado que chega direto ao streaming em janeiro, começam a pressionar por processos mais transparentes. Essa nova escola afirma que abrir as entranhas do desenvolvimento pode reduzir desperdícios — ideia que contraria a mística do “gênio solitário” mantida pelo Ghibli. O debate ecoa na Bandai, que acaba de refazer o Wing Zero para o mercado dos EUA depois de pesquisas de design coletivo, e na Toei, criticada pelo ritmo lento do novo anime de Dragon Ball.

Para o público, a curiosidade maior é descobrir que Princesa Mononoke poderia ter soado como um conto arturiano — e talvez nem tivesse os icônicos kodamas balançando na copa das árvores. Para o mercado, a lição é outra: o veterano de 83 anos só chegou ao filme que girou US$ 170 milhões porque teve liberdade (e coragem financeira) para rasgar páginas já custeadas. Num cenário de orçamentos cada vez mais fechados, o modelo é difícil de replicar, mas continua sendo a pedra fundamental do mito Miyazaki.

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