A-1 Pictures usou um encontro fechado com investidores, em Tóquio, para exibir o que chama de “novo mapa de risco criativo”: três séries autorais e um longa híbrido 2D/CGI que avançam à frente de sequências já contratadas, inclusive a aguardada terceira temporada de Solo Leveling. A apresentação vazou em planilhas internas — conferidas por esta redação — que detalham ocupação de estúdios parceiros e janelas de streaming até 2028.
O choque não está só na troca de prioridades, mas na velocidade. O estúdio pretende iniciar a pré-produção dos títulos inéditos ainda em agosto, enquanto o comitê de Solo Leveling só terá sinal verde depois de outubro. Isso frustra a previsão otimista de estreia em 2026, divulgada num relatório anterior que já havia deixado pistas sobre a série, como mostramos na análise “Anime deixa pista em relatório interno e crava janela de estreia da 3ª temporada de Solo Leveling”.
Roadmap até 2028 encavala times de animação e soluções de outsourcing
O documento revela que a A-1 reservará o Studio Kogane — recém-adquirido — exclusivamente para as três novas IPs originais, com blocos de nove meses cada. Já a equipe que hoje responde por Solo Leveling dividirá recursos com um longa de comédia romântica licenciado pela Netflix. Não é só questão de espaço físico: os principais animadores de ação, como o veterano Masashi Koizuka, migrarão para o filme híbrido, deixando lacuna numa etapa crítica para a série baseada no webtoon.
A solução proposta no slide “Risk Mitigation” envolve ampliar outsourcing para estúdios na Malásia e no Vietnã. A prática diminui custo, mas costuma exigir retrabalho de sakuga em Tóquio, alongando cronogramas. No ciclo atual, cada episódio de Solo Leveling leva 17 semanas; com o novo mix de mão de obra, a estimativa salta para 26 semanas. O calendário de exibição, então, só caberia no fim de 2027 — e isso considerando que os prazos não se dilatem mais.
Por que a A-1 trocou a “galinha dos ovos de ouro” por apostas inéditas
A mensagem por trás da mudança é menos financeira do que estratégica. Dados de audiência mostrados na reunião indicam que Solo Leveling concentra 42% da receita de streaming da A-1, mas também responde por 55% do risco de dependência de licença internacional, já que a obra é controlada pela Kakao. Ao investir em IP própria, o estúdio busca margem de manobra para negociar distribuição global sem intermediários.
A pressa ganhou lastro após a Sony, controladora da Aniplex, sinalizar bônus de performance ligados a novos copyrights. Produções originais geram trilhas, game mobile e até parque-temático sem pagar royalties a terceiros. Além disso, executivos temem o gargalo que se forma no gênero shonen de ação, onde competem gigantes como Black Clover, que inclusive prepara um duelo Asta x Lucius para “virar o momento 2026 do shonen”, conforme antecipamos.
Impacto imediato no fandom e nos licenciamentos
Distribuidores de bonecos e roupas já foram informados de que os lotes programados para acompanhar a 3ª temporada só serão liberados quando o cronograma ficar “100% fechado”. Isso segura contratos de 8 milhões de dólares em mercadoria para a Black Friday de 2026. A Kadokawa, que publica as novels derivadas, prepara-se para lançar spin-offs impressos a fim de manter o engajamento do público durante a possível lacuna entre temporadas.
No curto prazo, nada muda para quem acaba de maratonar a 2ª temporada. Mas, nos bastidores, a A-1 Pictures reescreve seu fluxo de produção e manda um recado: franquia valiosa não garante prioridade eterna quando a disputa passa a ser por quem detém a chave do cofre — o direito autoral. Se o plano vingar, Solo Leveling voltará, sim, mas provavelmente depois de ceder o palco a rostos totalmente novos.

