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‘Angel of Death’ reaquece o mangá noir ao fundir Blade Runner com a angústia de Evangelion

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Neve permanente, letreiros neon e um mecha que parece carregar todos os pecados do mundo: assim começa “Angel of Death”, nova série que estreia em julho e já foi vendida como o encontro entre Blade Runner e Evangelion. O título, revelado com exclusividade para o mercado norte-americano, parte de um filão pouco explorado nos últimos anos: o mangá noir com protagonista detetivesco e dilemas existenciais de escala quase bíblica.

Se o leitor sente um cheiro de repeteco, os editores arriscam o contrário: “Angel of Death” pretende ocupar o espaço deixado pelas ficções científicas de alto teor filosófico, território que a animação Star Wars: Tales of the Empire e o final de Attack on Titan ajudaram a reabrir. A estratégia sinaliza uma disputa feroz por leitores adultos antes mesmo do outono japonês, quando os títulos shonen costumam dominar as prateleiras.

Nova aposta mira o leitor órfão de ficção científica densa

Durante a última década, “cyberpunk” virou sinônimo de estética — casacos longos, luzes de neon — mais do que de questionamento social. “Angel of Death” tenta reverter essa diluição ao trazer como protagonista um policial desiludido que investiga aparições do chamado Anjo da Morte nas ruas congeladas de New Borealis. A cidade, criada para o mangá, é um corredor de vento ártico em um planeta que parece outro, mas traz vícios bem humanos: megacorporações que legislam no lugar do Estado e uma população vigiada por drones-sereia.

O tom não é casual. Segundo pessoas ligadas ao projeto, o roteiro foi escrito “de trás para frente”, começando pelo dilema ontológico — o que resta da alma quando a tecnologia nos engole — para depois ganhar cenas de ação. Essa inversão busca resgatar o peso dramático que fez Evangelion sobreviver por quase 30 anos enquanto franquias inteiras de mecha sumiam das bancas.

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Cenário gelado, mechas existenciais e investigação suja

A primeira edição abre com o corpo de um executivo pendurado em um outdoor holográfico. Junto ao cadáver, os símbolos de asas estilizadas que dão nome ao assassino: o Anjo da Morte. Cada pista encontrada pelo detetive Kael Nunes remete a uma unidade mecha desativada na última guerra climática, máquinas gigantes que agora jazem soterradas sob a neve e funcionam como “ruínas contemporâneas” — descrição inspirada em ruínas egípcias, segundo o artista-chefe.

Esse elemento dos robôs adormecidos é a ponte mais direta com Evangelion, mas a obra usa o clichê para tensionar outra ferida: a privatização das Forças Armadas. New Borealis não tem exército oficial; cada conglomerado mantém seu arsenal. O Anjo, ao que tudo indica, tenta impedir que um desses zepelins corporativos revitalize os velhos mechas, agora movidos a energia fria extraída da atmosfera, tecnologia que poderia colapsar de vez o clima do planeta.

Por que isso importa agora

O timing não é coincidência. Editoras de mangá fora do Japão perceberam que os leitores que nos anos 2000 acompanhavam Cowboy Bebop e Ghost in the Shell hoje têm poder de compra, mas pouca oferta de material inédito nessa linha. A mesma lógica empurrou a Disney a lançar episódios de Bleach: Thousand-Year Blood War em janelas “premium”. Ao colocar “Angel of Death” nas lojas físicas e, simultaneamente, em plataformas de assinatura, a editora testa um híbrido de distribuição que promete royalties mais altos para autores e risco menor para o mercado.

Na prática, a série chega para medir até onde vai o apetite do público por ficção científica sombria em 2024. Se “Angel of Death” vingar, abre-se a porteira para que outros mangakás revisitem o noir cyberpunk com orçamento real e circulação global. Caso contrário, o gênero volta ao congelador de onde saiu. Para quem acompanha de perto as manobras de licenciamento, o mangá é menos uma aposta isolada e mais um termômetro sobre o que o público adulto quer ler depois de duas décadas consumindo remake atrás de remake.

A primeira edição sai em inglês no início de julho, impressa e digital. A negociação de tradução para o português está na mesa, mas nenhuma casa editorial confirmou cronograma. Se depender do burburinho, New Borealis terá inverno longo — e a luta pelo próximo grande mangá de ficção científica só está começando.

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