O primeiro lote dos Beyblades inspirados em Neon Genesis Evangelion evaporou em minutos nas lojas japonesas nesta quinta-feira, e não foi o metal reluzente que acelerou as vendas. O designer responsável cravou que cada peça foi modelada diretamente nos três Evas que estrearam na TV em 1995 — uma decisão que aposta no poder da lembrança quase religiosa que a geração VHS ainda tem pela série de Hideaki Anno.
Além de provocar filas físicas, o lançamento expõe uma virada curiosa: em plena era de streaming, a Khara e a Takara Tomy preferiram mirar num brinquedo analógico para testar o potencial de um novo spin-off “anos 90” de Evangelion. A jogada coloca a franquia num front diferente da guerra digital e sinaliza como o mercado de nostalgia virou palco de disputa tão feroz quanto a que já se vê nas telas.
Evangelion troca o último Anjo pela arena de plástico
Batizada de Evangelion Evolution Set, a coleção reúne três peões: Unit-00, Unit-01 e Unit-02. Cada disco carrega a paleta exata da animação original e replica detalhes como o chifre serrilhado do EVA-01 ou o ombro vermelho da EVA-02, traduzidos em lâminas de ataque. Segundo a fabricante, apenas 15 000 kits chegaram às prateleiras japonesas, ao preço de 6 600 ienes.
O número reduzido não é acaso. A Takara Tomy vem testando, desde 2022, edições-relâmpago que criam sensação de escassez — tática já explorada pela Crunchyroll, como revelado na estreia-relâmpago do novo anime citada aqui. A diferença agora é que o brinquedo físico atua como “ponto de contato raiz”, capaz de fisgar fãs órfãos da locadora e, depois, empurrá-los a conteúdos digitais que ainda serão divulgados.
Esse cross de licenciamento também coloca Evangelion pela primeira vez dentro da linha Beyblade. Durante coletiva em Tóquio, o designer Kentarō Osada contou que garimpou artes conceituais do estúdio Gainax para acertar proporções dignas de mecha — e não o estilo arredondado típico dos peões. O resultado são bordas mais angulosas, 12% mais largas, o que muda a aerodinâmica e torna o set proibido em campeonatos oficiais, mas irresistível para colecionadores.
Adultos pagam a conta: o alvo real da ofensiva nostálgica
A base infantil de Beyblade continua forte, mas quem disparou o sold-out foram compradores entre 30 e 40 anos, aponta rastreamento da varejista AmiAmi. É a mesma turma que, na pandemia, turbinou os leilões de fitas VHS lacradas e de figures de luxo — caso da reedição sangrenta de Guts, de Berserk, esgotada em horas no final de 2023.
Para a Khara, a matemática é simples: cada adulto disposto a pagar 45 dólares num Beyblade de exibição topa desembolsar cem vezes mais por uma estátua premium ou por boxes Blu-ray 4K. A parceria com a Takara Tomy funciona como porta de entrada acessível, esquentando o público para a leva de produtos high-end prometida para 2025, quando a série completa 30 anos.
O detalhe de engenharia que o fã casual ignora
- O Layer do EVA-01 esconde um núcleo “Burst-Stop” inédito; ele trava o peão após a quarta colisão, referência à Quarta Impacto na cronologia Rebuild.
- Já o Driver do EVA-00 traz rolamentos laranja, citando o fluido LCL em que os pilotos submergem. É o primeiro Driver transparente dessa cor na história da linha.
- No EVA-02, a superfície abrasiva reproduz micro-cortes que simulam as cicatrizes da batalha contra o Anjo Zeruel, detalhe que só aparece em um frame da série original.
Esses micro-acenos mostram que a coleção foi pensada para quem decora quadro a quadro do anime. Não à toa, blogs especializados sugerem que o próximo passo seja um set baseado nos Evas de produção em massa do filme The End of Evangelion, algo que criaria seis novas peças sem custo de molde para a fabricante.
A aposta, portanto, não é vender infância em rotação, mas transformar um peão de 7 cm no gatilho que conecta duas gerações: quem ainda guarda a caixa de EVA-01 na estante e quem descobre agora, no TikTok, que o apocalipse existencialista pode caber numa arena de plástico. No ringue do consumo afetivo, Evangelion acaba de mostrar que ainda sabe lutar no corpo a corpo.

