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Bleach faz seu ponto-final após 22 anos e ainda precisa provar que foi gigante

Daqui a quatro dias, a luta de Ichigo Kurosaki contra Yhwach chega ao último golpe na TV japonesa. O episódio duplo encerra, enfim, a adaptação completa de Bleach, série que sustentou o pilar “Big Three” do shonen ao lado de Naruto e One Piece — mas que, ironicamente, jamais desfrutou do prestígio comercial dos rivais.

Esse ponto-final reacende uma pergunta que persegue o título desde 2004: como uma franquia que vendeu 130 milhões de volumes se tornou, aos olhos do mercado global, a carta menos valiosa do mesmo baralho que consagrou ninjas e piratas? A resposta passa por decisões editoriais erráticas, pelo fim da era da TV aberta para animes de ação e pela guerra opaca dos direitos de streaming.

Hiatos, fillers e o preço de voltar tarde demais

Quando o mangá original acabou em 2016, Bleach já sangrava audiência desde os longos arcos fillers impostos pela TV Tokyo para “esperar” a obra de Tite Kubo. A estratégia segurou a grade, mas esgotou o público local e reduziu o apelo internacional exatamente quando os serviços on-demand começavam a mapear novos assinantes.

One Piece, por exemplo, manteve episódios semanais ininterruptos e converteu o excesso em meme; Naruto encerrou no auge e renasceu rápido com Boruto. Bleach ficou no limbo. O retorno, em 2022, com a saga Thousand-Year Blood War, precisou reconquistar fãs dispersos e enfrentar a geração que cresceu maratonando Jujutsu, Demon Slayer e obras elogiadas na era pós-isekai “vale-tudo”.

Streaming fragmentado abafou o boca a boca

Outro golpe invisível veio do licenciamento partido. Nos Estados Unidos, a transmissão exclusiva no Hulu afastou quem esperava o título no Crunchyroll, hoje sinônimo de “catálogo shonen”. No Brasil, a opção pela Disney+ causou surpresa, mas não a divulgação em massa que Demon Slayer recebeu da concorrência. Resultado: o buzz migrou para nichos e memes pontuais, enquanto séries menores como Blue Lock dominaram redes sociais.

A fragmentação também atrasou lançamentos físicos. A Aniplex só sinalizou boxes em Blu-ray para 2025, ano em que Attack on Titan deve ter edição 4K. Sem material de coleção, Bleach perdeu a vitrine que costuma reviver clássicos — vide Dragon Ball Kai, relançado justamente para corrigir ritmo e introduzir nova geração.

O detalhe que pode mudar o veredito

Mesmo subvalorizado, Bleach encerra a guerra com uma arma de longo alcance: o roteiro de Kubo nunca foi tão cinematográfico. O episódio final terá animação reforçada pela equipe de Fate/Grand Order, trilha de Shirō Sagisu com gravação orquestral em Abbey Road e a estreia de “My Last Words”, single da banda Burnout Syndromes pensado para streaming de áudio lossless. É o tipo de investimento que costuma viralizar cortes de 30 segundos no TikTok — o território onde a maioria dos adolescentes descobre animes hoje.

Se o fechamento entregar a qualidade prometida e a Disney liberar simultaneamente dublagem em português, Bleach pode escrever a ironia definitiva: encerrar no auge e, só então, receber o título de clássico incontestável que lhe escapou durante 22 anos de espadas, almas e equívocos de mercado.

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