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Quando o criador de Chainsaw Man admite inveja: por que um filme indie virou assunto na indústria de anime

Foi preciso menos de duas horas de projeção para que Tatsuki Fujimoto, a mente por trás de Chainsaw Man, deixasse escapar no lobby do cinema algo incomum para um autor do mainstream japonês: “estou com inveja desde que li o roteiro”. O comentário, reproduzido depois em sua conta privada no X, referia-se a “Phoenix: Ao Cair da Chuva”, longa de estreia da minúscula etiqueta Novi Films, exibido numa sessão-teste em Tóquio nesta semana.

O desabafo disparou uma caça a ingressos para as próximas pré-estreias e, acima de tudo, abriu um flanco que o mercado não ignorou: se até um medalhão da Weekly Shonen Jump se sente ameaçado, algo no equilíbrio de poder entre estúdios tradicionais e produtoras nascentes mudou — e mudou agora.

Inveja pública vira arma de marketing e sacode os gigantes do anime

Não há histórico recente de um mangaká do primeiro escalão admitir, em voz alta, ciúme de um concorrente fora do circuito dos grandes comitês. Fujimoto fez exatamente isso, e sem nenhum contrato de participação no filme. O resultado foi imediato: a Novi Films, criada há apenas 18 meses por ex-animadores de Your Name, viu suas redes crescerem 370% em 48 horas e recebeu cinco consultas de distribuidoras estrangeiras, segundo a própria equipe.

Para analistas do setor, a declaração vale mais do que qualquer patrocínio: ela chancela a ideia de que a próxima revolução criativa pode vir de fora dos estúdios estabelecidos. Vale lembrar que, em 2023, a Crunchyroll sofreu repercussão negativa ao anunciar a presença de Guillermo del Toro em evento antes de garantir o contrato — brecha que mostra como o hype pode se voltar contra quem depende demais de espetáculo externo.

O que faz “Phoenix” tão diferente — e por que isso incomoda

O longa, inspirado em contos de ficção científica pulp dos anos 1960, aposta em animação 2,5D sem filtros de toon shading. Em vez de seguir o modelo de produção em linha de montagem, a Novi contratou 34 artistas que trabalharam simultaneamente em blocos fechados de cinco minutos, entregando micro-capítulos quase prontos para a montagem final. O custo declarado ficou em 5,2 milhões de dólares — um terço do orçamento médio de um filme distribuído por um grande estúdio japonês.

Para Fujimoto, segundo relato de um editor presente na sessão, o que desperta inveja é justamente a combinação de liberdade autoral com cronograma enxuto. O autor teria destacado a cena de chuva que dá nome ao projeto: “nunca vi água virar personagem principal desse jeito”. Tecnicamente, o trecho usa camadas de aquarela digital sobre malhas 3D, recurso que Studio MAPPA só começou a testar em Jujutsu Kaisen — tentativa de renovação detalhada neste artigo.

Estúdio novato corre para aproveitar a onda e joga luz em um novo tabuleiro

A Novi já negocia exibição limitada em IMAX e planeja lançar o filme no primeiro trimestre de 2025, apostando em boa vontade de festivais europeus. Mas o movimento mais ousado foi outro: anunciar, menos de 24 horas após o buzz, a aquisição dos direitos de uma história curta de horror psicológico cujo autor Fujimoto elogiou em 2018. A leitura é clara — transformar o elogio invejoso em ponte para um próximo projeto e atrair, no pacote, o interesse de investidores que preferem nomes consagrados.

Do lado dos grandes estúdios, o silêncio prevalece. Executivos consultados em condição de anonimato afirmam que é “apenas um pico de algorítmo”, mas a cautela denuncia receio de que a plateia jovem, cada vez menos fiel a marcas, comece a enxergar nos selos independentes a mesma promessa de renovação que viu no mangaká das motosserras. Em outras palavras, o comentário impensado de Fujimoto pode ter feito mais do que promover um filme: pode ter puxado o gatilho de uma nova disputa por talento e atenção no anime pós-streaming.

No fim, a inveja confessada virou trending topic, o filme ganhou manchetes e o leitor atento percebe um detalhe que escapa à superfície: mais do que um elogio espontâneo, a fala de Fujimoto expõe um desejo latente entre criadores de shonen — a liberdade de fazer cinema sem as amarras de cronograma e comitê. Se a Novi Films vai manter o fôlego, ainda é cedo para dizer. Mas o alerta aos gigantes já foi dado, e partiu de quem eles menos esperavam.

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