Cento e sessenta euros. Foi esse número que apareceu ontem no rodapé da pré-venda de EA Sports FC 27 e rapidamente virou munição para memes, críticas e cálculos de câmbio nas redes. A edição batizada de Ultimate Plus é, na prática, o jogo mais caro já lançado pela Electronic Arts — e coloca a editora no centro de um debate que já extrapola o futebol virtual: até onde o público aceita pagar para jogar?
O valor supera em €60 o antigo topo de linha (Ultimate) e empurra o tíquete para perto dos grandes lançamentos de hardware, como controles premium — tema que a própria Sony ronda com a recente patente magnética para o PlayStation 6. Só que desta vez não há peça física na caixa, apenas pacotes de moedas virtuais, acesso antecipado e cartas digitais que podem envelhecer em semanas.
Preço recorde abre nova fissura no teto psicológico dos games AAA
Em 2023, quando FC 24 trocou o nome FIFA por “FC”, a EA já testara o bolso com a edição Ultimate de €100. Um ano depois, a marca sobe para €160 — salto de 60% em 12 meses, acima da inflação global e da remuneração média de ligas menores que o jogo licencia. Nas principais lojas brasileiras, fontes do mercado indicam que a conversão deve flutuar entre R$ 800 e R$ 950, mesmo com a prática de “regional pricing” que costuma aliviar parte dos custos.
Se confirmar o patamar, FC 27 ultrapassará o valor de coleções de luxo que traziam steelbook, camisa ou bola de verdade. Aqui, o prêmio é intangível: 4.600 FC Points extras, 10 cartas de Icon promissores e início de temporada com sete dias de folga sobre quem comprar a edição básica. É a monetização dentro da monetização — paga-se caro para ter fichas que em poucos cliques podem se esgotar e levar o jogador de volta ao checkout.
Ultimate Plus mira a “baleia” do Ultimate Team e escancara a lógica do cassino
Nos bastidores, executivos da EA chamam a estratégia de “premium para engajar o high spender”. A conta fecha porque a editora mede o ciclo completo: quem desembolsa €160 tende a investir ainda mais em pacotes semanais durante a temporada, turbinando a margem em microtransações. A matemática replica o modelo das plataformas que liberam lucky blocks ou códigos especiais para manter a carteira do usuário sempre entreaberta.
O problema é que, diferente do Roblox ou de gacha mobile, FC 27 carrega o selo de “simulador oficial” de uma paixão global. E o torcedor começa a questionar se não está bancando duas vezes a mesma arquibancada: primeiro pelo ingresso de entrada, depois pelo sócio-torcedor que compra na esperança de tirar Mbappé dourado no primeiro pack.
Efeito cascata: concorrência observa e consumidor corre risco de anestesia
Ubisoft, 2K e até estúdios independentes monitoram a reação do mercado. Se o barulho ficar restrito ao Twitter e as vendas se mantiverem, o degrau de €160 vira novo piso para edições cheias de mimos digitais. Caso contrário, a EA poderá receber a conta na forma de churn acelerado, algo que o modelo anual da franquia não costuma perdoar.
Para o público brasileiro, o cenário é ainda mais sensível: políticas de reembolso são menos flexíveis e as plataformas de revenda raramente oferecem desconto expressivo antes do lançamento. Como resultado, quem aderir à Ultimate Plus corre o risco de pagar quase mil reais por um jogo que, em seis meses, deverá ser oferecido em promoções sazonais — repetindo o roteiro que transformou a Ultimate de FC 24 num pacote de R$ 159 pouco antes do Natal.
Entre a promessa de cartas lendárias e o temor de apertar o gatilho de saque sem perceber, FC 27 estreia uma nova era de preços que se aproxima perigosamente do salário mínimo em vários países. Agora, resta saber se a paixão pelo futebol vai sustentar a aposta ou se a EA finalmente encontrou o limite de gasto que o torcedor-gamer se recusa a ultrapassar.
Acesse diariamente nossas dicas sobre animes e games para não perder nada. Siga também o RadioGeekBR no Facebook!

