A Katana iridescente atravessa o peito roxo do Unit-01, mas o que faz os fãs prenderem a respiração não é a cena que já conhecem: é o estalo dos novos pontos de articulação que permitem posar o EVA exatamente como no clímax de The End of Evangelion. A Khara escolheu um redesign total para inaugurar a linha “Evamodel”, revelada nesta terça-feira em Tóquio, e transformou o robô-símbolo da geração 1990 na peça-piloto de uma ofensiva que promete disputar território com a hegemonia Gunpla.
Mais que um brinquedo de luxo, o lançamento marca a primeira colaboração direta entre o estúdio de Hideaki Anno e uma engenharia de kits pensada do zero para licenças fora da órbita Bandai. O resultado embute dobradiças internas de metal, LEDs intercambiáveis e um sistema de armor swap que já denuncia quais unidades 02, 00 e 08 virão em seguida — tudo isso a tempo dos 30 anos do anime em 2025.
Redesenho transforma anatomia do EVA em vitrine de microengenharia
À distância, o novo Unit-01 parece fiel ao traço original, mas três mudanças mudam o jogo. As lâminas da ombreira agora se soltam sem risco de tensionar o plástico; o tórax ganhou feixes de fibra de carbono nas articulações, permitindo o “berzerk crawl” visto no filme 3.0+1.0; e a cabeça, fundida em cinco cores na injeção, elimina pintura para o modelista iniciante. Segundo técnicos presentes no anúncio, o processo usa resina ABS misturada a TPE flexível, tecnologia importada das figuras premium de Persona 3 que a Atlus liberou recentemente.
O kit chega em escala 1/100, a mesma dos Master Grade de Gundam, mas a Khara incluiu um esqueleto universal para que futuras variantes mantenham proporções idênticas. Essa matemática contratual elimina retrabalho e, na prática, barateia expansões: quem comprar o pacote base precisará apenas das placas de armadura específica para montar o EVA-02. É a primeira vez que um fabricante de mecha aplica estratégia de “season pass” física, clara tentativa de fidelização após a Crunchyroll provar que público exausto prefere continuidade a volumes isolados.
Nostalgia virou arma: Evangelion renasce em plena saturação de robôs
Gundam ainda domina 80% do giro de kits no Japão, mas pesquisas da Animate mostram que séries fechadas — como Evangelion e Overlord, que volta em 2028 para driblar a fadiga isekai — crescem 23% ao ano no segmento adulto. O fator decisivo é a memória emotiva: quem assistiu ao Impacto Final em VHS agora tem renda para pagar 19 000 ienes por um modelo com LED no núcleo S².
Essa lógica explica o marketing relâmpago: pré-venda limitada a 38 seconds — alusão óbvia ao conto bíblico da lança de Longinus — e bônus digital que destrava cenas de making of em 4K. A tática espelha o “dois filmes de uma vez” que One Piece adotou para incendiar o fandom e mostra como a cultura pop se acostumou à urgência do FOMO. Evangelion, que sempre nadou contra a maré, decidiu surfar a onda desta vez.
Conectores ocultos entregam o próximo passo da linha
Durante o demo hands-on, colecionadores notaram dois encaixes extras nas costas do Unit-01, camuflados sob a saída de energia. O manual não cita a peça, mas o engenheiro-chefe soltou a pista: “Nada em Evangelion fica sem cabo por muito tempo”. Fontes da indústria avaliam que esses pontos receberão o módulo de asa do EVA-01 Kai, design que só aparece por segundos no curta Until You Come To Me. Caso se confirme, o Evamodel estreará o primeiro kit canônico de uma forma até então confinada a artbooks.
É um recado claro: a Khara não pretende limitar a linha ao que o público já viu na série. E, se a jogada der certo, outros estúdios podem replicar a fórmula de rechear um modelo básico com portas para expansões surpresa. Assim, a guerra dos mechas ganha um novo campo: não basta vender nostalgia, é preciso manter a caixa de ferramentas aberta para o próximo impacto.
No fim, o que a Unit-01 redesenhada traz não é só plástico meticulosamente colorido; é a promessa de que Evangelion, mesmo encerrado na TV e no cinema, ainda tem armaduras inexploradas para converter em desejo de coleção. E, pelo visto, a batalha por esse espaço mal começou.

