Mal entrou no catálogo mundial na madrugada de quinta-feira e “The Runner” já colecionava duas marcas difíceis de rebater: 3,2 no IMDb e apenas 6 % de aprovação no agregador Rotten Tomatoes — percentual que, na manhã de hoje, virou o mais baixo entre os longas lançados em 2024. A má recepção ganhou corpo tão rápido que a própria plataforma distribuidora removeu o título da vitrine principal em menos de 24 horas, prática incomum para produções de alto orçamento.
O tropeço cria uma situação desconfortável para Gal Gadot. Depois de “Heart of Stone” e do cambaleante “Mulher-Maravilha 1984”, a atriz volta a liderar um projeto caro que não convence nem público nem crítica. Mais do que um deslize individual, o episódio acende a luz vermelha sobre o modelo de filmes-evento pensados para streaming, já sob suspeita desde a crescente fadiga do blockbuster de herói nas salas de cinema.
Notas derretem em tempo recorde e fazem serviço esconder o próprio original
Segundo o painel em tempo real da consultoria Samba TV, “The Runner” foi reproduzido por 1,4 milhão de contas nas primeiras 12 horas, mas 57 % delas desistiram antes da marca de 25 minutos — a pior retenção para um título promocionado na home do serviço desde 2022. A decisão de rebaixar o banner principal, confirmada por executivos que pediram anonimato, ocorreu ainda na noite de estreia, após o termômetro interno de buzz negativo superar 85 % nas redes.
Críticos citam um roteiro “feito por algoritmo”, repleto de diálogos expositivos e cenas de ação que ignoram geografia básica. O filme, vendido como um thriller sobre uma ex-agente perseguindo uma rede de contrabando global, repete set-pieces genéricos gravados em estúdios de fundo verde. Para a revista britânica Sight & Sound, a direção “parece um piloto caro de série que ninguém quis comprar”. Já o Los Angeles Times afirmou que Gadot “corre mais que atua”, numa alusão direta ao título.
Fiasco ameaça projetos futuros de Gadot e balança estratégia de orçamentos inchados
Internamente, “The Runner” custou cerca de US$ 85 milhões, montante confirmado por fontes próximas à produção, valor similar ao de “Red Notice”, que ainda aguarda sinal verde para uma sequência. Um executivo da agência CAA, que representa a atriz, confidenciou que o fraco desempenho pode atrasar o ambicioso “Cleópatra”, épico que Gadot coproduz e estrela, pois investidores temem nova rejeição.
Do lado das plataformas, o episódio intensifica a revisão de orçamentos acima de US$ 70 milhões para títulos sem marca pré-existente. Um memorando interno da gigante do streaming, vazado ao The Ankler, admite que filmes de estrelas isoladas já não convertem assinaturas como em 2020, pico da pandemia. A aposta agora tende a migrar para pacotes seriados de custo médio, com maior potencial de fidelização semanal.
O detalhe que pouca gente viu: taxa de “conclusão” pior que a de séries canceladas
Entre os dados divulgados pela Parrot Analytics, a métrica de completion rate de “The Runner” fechou em 34 % nas primeiras 48 horas — menor que a registrada por séries já canceladas, como “1899” (40 %). Esse índice, pouco comentado pelos estúdios, pesa mais que o total de horas vistas na definição de renovação ou corte de novas parcerias. Ou seja, além de manchar a vitrine, o longa de Gadot arranhou o KPI que realmente decide onde o dinheiro vai parar em 2025.
Para o público, a consequência imediata é o sumiço silencioso de filmes que tentam se vender só pelo rosto famoso. Para Gadot, o desafio será provar que ainda vale um cachê de oito dígitos num ecossistema que agora cobra não apenas cliques, mas permanência — e “The Runner” mostrou, cronômetro em mãos, que correr já não basta.

