Num encontro fechado na sede do Studio Ghibli, em Koganei, Tóquio, o já lendário Hayao Miyazaki saiu da sala de projeção “insano”, segundo um dos produtores presentes, depois de assistir ao primeiro corte do próximo longa co-dirigido por seu filho Goro. O veterano, aplaudido mundialmente por “O Menino e a Garça”, teria interrompido a sessão três vezes para contestar escolhas visuais e ritmo da narrativa.
O acesso de fúria, relatado por fontes internas, não é mero chilique de gênio: ele planta dúvidas concretas sobre quem, afinal, comandará o estúdio após a aposentadoria definitiva do cofundador. E o timing é crítico: Ghibli negocia nova linha de financiamento para ampliar o parque Ghibli Park e abastecer streaming – um desafio que pede liderança clara.
Reação explosiva reacende rivalidade criativa entre pai e filho
A tensão entre Hayao e Goro não é novidade. Em 2006, o pai classificou “Contos de Terramar”, estreia do filho, como “imatura”. O clima arrefeceu em “Da Colina Kokuriko”, mas nunca virou parceria harmoniosa. Desta vez, porém, o embate ganhou outro peso: Hayao não participou da pré-produção e só foi chamado, já tarde, para opinar no rough cut. Quando viu a estética de traço grosso mesclada a cenários 3D – recurso que o estúdio sempre tratou com cautela –, o mestre explodiu.
Segundo integrantes da equipe, Goro tentou defender a linguagem híbrida alegando que produções recentes, como o futuro anime de “Eleceed” que tropeçou em CGI rígido, esbarram na ausência de um estilo autoral. Para o pai, a justificação era “desculpa de orçamento”. O confronto terminou com um alerta nada sutil: “Se isso sair com meu selo, vai sair direito”.
Filme é teste real de sucessão após ‘O Menino e a Garça’
Diferente dos projetos anteriores, o novo longa (ainda sem título divulgado e previsto para 2026) foi concebido já sob o organograma reformulado que coloca Toshio Suzuki no conselho e delega a direção de arte a um comitê jovem. Em outras palavras, é o primeiro título em que o nome Miyazaki está nos créditos, mas não na sala de storyboard.
Esse arranjo surgiu para responder a duas pressões: a de investidores, que pedem mais lançamentos anuais, e a de streaming, que cobra catálogo inédito. Após a vitória de “A Garça” no Oscar, o estúdio prometeu dobrar a produção até 2028, algo impensável no ritmo perfectionista de Hayao. Se Goro falhar, a estratégia inteira derrete – e o lendário diretor, aos 83 anos, pode ser convocado de novo, atrasando a transição que ele mesmo prega desde 2013.
O que muda para o público e para a marca Ghibli
Nos bastidores de distribuição, a explosão do pai já causa eco. A Toho, parceira histórica, estuda cláusulas para proteger prazos caso o velho Miyazaki volte a interferir. E a Netflix, que corteja o filme para lançamento global, quer garantias de making of exclusivo – condição que pode atrair novos fãs, como ocorreu quando a Seiko apostou em “One Piece” com tiragem limitada de relógios e elevou buzz.
Para o espectador, o impasse define se Ghibli manterá a fantasia contemplativa de “Totoro” ou se deslizará para a ação acelerada exigida pela geração de “Jujutsu Kaisen”, que ensaia novo game no PS5 e no futuro Switch 2. O detalhe que passa despercebido: o storyboard vetado por Hayao incluía uma sequência aérea que homenageia “O Serviço de Entregas da Kiki” – justamente o tipo de piscadela que costuma encantar a crítica. Se ela cair, o longa talvez perca a ponte emotiva com o passado, mas ganhe identidade própria.
Ao final da reunião, pai e filho deixaram o prédio sem se falar. O estúdio garante que o cronograma segue intacto, mas o rumor de que Hayao “pode colocar a mão” de novo já basta para colocar Hollywood, fãs e investidores em alerta máximo. No universo Ghibli, a magia nunca foi tão política.

