Pela primeira vez desde 1979, um “Gundam” vai nascer falando inglês — não japonês. A regra não escrita, mantida em todas as séries e filmes da franquia, cai na futura animação Mobile Suit Gundam: Requiem for Vengeance, escrita e dirigida por Kenji Kamiyama.
Em entrevista exclusiva ao mercado norte-americano, o diretor explicou que o estúdio Sunrise optou por rodar diálogos, captura facial e mixagem diretamente em inglês para, nas palavras dele, “contar a guerra de forma universal”. A decisão antecipa uma virada estratégica: produzir antes para o streaming global e só depois dublar para o público doméstico.
Primeiro Gundam de língua inglesa é laboratório da Sunrise para a era pós-Blu-ray
Kamiyama descreve Requiem for Vengeance como “fronte europeia” da Guerra de Um Ano, cenário histórico da cronologia UC. O campo de batalha multicultural justificaria a troca de idioma, mas o movimento esconde teste maior: provar que a marca resiste sem depender do circuito japonês de TV tarde da noite, hoje saturado.
A série nasce em Unreal Engine 5, parceria entre Sunrise, Bandai Namco Filmworks e estúdios ocidentais de VFX. O workflow todo – captura de performance, trilha, efeitos – foi montado para falantes nativos de inglês. Só depois o áudio será adaptado ao japonês, invertendo o fluxo que rege a indústria desde Astro Boy.
Os produtores querem medir duas métricas decisivas: taxa de retenção em catálogo mundial e poder de venda imediato de gunpla fora da Ásia. Se convencer, o modelo pode emular o que a plataforma Crunchyroll fez ao usar Genshin Impact como isca para ampliar assinaturas: entregar conteúdo pronto no idioma que o assinante já consome.
Impacto direto no fã — e no cofre bilionário da Bandai
Bandai não esconde o alvo. Mais de 80 % da receita anual da divisão Hobby vem de fora do Japão, mas apenas 25 % dos títulos de Gundam chegam dublados ao Ocidente no lançamento. Um roteiro escrito em inglês reduz prazo de localização, barateia marketing e coloca as maquetes de plástico na prateleira simultaneamente com o hype da estreia.
A fabricante já testou esse fôlego ao reconstruir o Strike Freedom em edição premium antes do filme de Gundam Seed. A escala global de Requiem for Vengeance repete a lógica, porém em produção de conteúdo: se a linguagem deixar de ser barreira, o merchandising ganha tempo real no mercado.
Para o fã japonês, a inversão pode soar heresia. Perder o “som original” de dubladores consagrados nunca foi opção na franquia. Kamiyama admite o risco, mas aposta no realismo: “Se a guerra é mundial, o idioma também precisa ser”. O purista torce o nariz; o investidor agradece.
Entre tradição e expansão, o recado é claro: a Sunrise prefere sacrificar a regra mais sagrada a deixar que novos públicos conheçam Gundam via outras marcas de mecha. Se der certo, não será surpresa ver os próximos 47 anos da saga começarem no idioma do algoritmo — e não mais no do estúdio em Tóquio.
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