John Stewart quase largou o clássico brilho verde no final da primeira temporada de Lanterns. O showrunner admitiu que a ideia de o anel do herói piscar em amarelo — cor associada ao medo e, claro, a Sinestro — chegou a circular como “muito boa”, mas acabou engavetada horas antes das filmagens.
O detalhe, aparentemente mínimo, carrega peso de saga cósmica inteira: mudar o espectro da tropa no último minuto mexeria não só com o arco do protagonista, mas com todo o tabuleiro que James Gunn já alinhou para o novo DCU. E a recusa, agora pública, revela mais sobre as pressões de bastidor do que sobre a cor do acessório.
Bastidor da sala de roteiro impede virada que roubava o clímax de Stewart
Segundo membros da equipe, a troca para amarelo surgiria depois de Stewart derrotar o antagonista em Coast City. O anel piscaria, sinalizando que o herói cedeu ao medo — sentimento que alimenta a tropa de Sinestro. Soaria como gancho imediato para a temporada 2, mas também correria o risco de transformar a vitória de Stewart em retrocesso dramático: o personagem passaria o ano inteiro dominando seus traumas apenas para regredir no último frame.
A discussão esbarrou em outra parede: a construção planejada de Hal Jordan. A participação reduzida do piloto, já confirmada para o spin-off de Clayface, pedia que o foco do medo recaísse primeiro sobre Jordan, não sobre Stewart. “Seria pular etapas”, resumiu um roteirista nos corredores da HBO.
A decisão ecoa o receio visto em outras produções do recém-anunciado DCU. Na própria série, a diretora de fotografia recebeu ordens de montar duas versões do clímax — uma com o flash amarelo, outra sem. A que chegou à sala de edição foi a “segura”. O showrunner, agora, admite que gostou mais da alternativa ousada, mas reconhece que ela podia “bagunçar a dramaturgia” de uma temporada vendida como estudo de caráter.
A cor do medo ainda ronda a Fase 2 e explica conexões já plantadas
A desistência não significa que Sinestro ficou para depois do apocalipse. Pelo contrário: produtores enxergam no susto não filmado a munição ideal para explorar o espectro emocional na continuação. O aceno à Tropa do Medo deve vir de forma mais orgânica, possivelmente atrelado ao arco de trauma bélico de Stewart — algo semelhante ao que o pôster-surpresa liberado pela HBO já sugeriu ao expor rachaduras amareladas na lanterna central.
Dentro da estratégia macro, a exclusão do anel amarelo guarda relação com a balança de “diamantes” que Gunn traçou. Desde que o cineasta chancelou Superman, Batman e Lanterna como joias-chave, qualquer cliffhanger que desviasse o farol para Sinestro poderia afetar o cronograma de filmes até 2027. O plano é estrear a Tropa do Medo só depois de Superman 2, longa que já virou “poste-guia” de minutagem para outros heróis.
Nos bastidores, há quem enxergue a cautela como recado: o DCU não queimará cartucho de vilão galáctico enquanto precisa fixar Stewart como coração moral da linha cósmica. O anel amarelo, portanto, continua carregado — mas dentro de um cofre criativo que só será aberto quando Hal Jordan estiver pronto para dividir o holofote.
Renovação pendente da HBO pesou mais que estética de quadrinhos
Executivos da HBO não escondem que Lanterns virou barômetro para dramas adultos na plataforma: alto orçamento, pouca certeza de retorno. No momento em que o cliffhanger amarelo foi debatido, a série ainda não tinha sinal verde para a nova leva de episódios. Cravar Sinestro ali seria assumir publicamente uma guerra espacial sem garantia de cheque assinado.
A opção por finalizar a temporada com aura de missão cumprida — anel intacto, Stewart reconciliado com seu medo — entrega um desfecho satisfatório caso a renovação não venha, mas também deixa frestas para crescer se a segunda temporada for aprovada. Em outras palavras: a cor padrão protege o investimento. Se o sinal de continuidade acender, nada impede que o primeiro frame da estreia traga exatamente aquilo que ficou no script cortado: um breve, mas fortíssimo, flash amarelo.
No fim, a ausência de um efeito visual de meio segundo revela muito mais do que um truque perdido. Ela expõe o xadrez de prioridades entre streaming, cronograma de filmes e a ambição de transformar John Stewart em símbolo de um DCU que promete menos espetáculos repentinos e mais evolução calibrada — nem que, para isso, o medo fique à espreita no escuro por mais uma temporada.

