O sétimo episódio de “Lanterns”, lançado nesta quinta (18), faz algo que James Gunn vinha evitando: tira do limbo o antigo Arrowverse. A série não só replica a cena em que John Stewart encontra o anel esmeralda num beco – exibida pela CW no encerramento de “Arrow” em 2020 – como eleva o momento a peça central do mistério sobre o assassinato de Hal Jordan.
Ao transformar homenagem em virada de roteiro, a produção para HBO Max inaugura um curioso pacto de continuidade: absorver o que funcionou na TV pré-DCU em vez de fingir que nada existiu. O movimento ocorre justamente quando a Warner ainda lambe as feridas do fracasso de bilheteria de “Supergirl” e precisa de um triunfo rápido no streaming para provar que o universo compartilhado não começou capenga.
Como a refilmagem muda o peso dramático do anel
Na versão da CW, o brilho esverdeado que engole John Diggle durou menos de 40 segundos e virou meme por nunca ganhar continuação. Em “Lanterns”, o mesmo clarão serve de cortina para revelar duas novidades: o anel já está “hackeado” — exibe mensagens truncadas em língua cósmica — e carrega vestígios de radiação idêntica à encontrada no local da morte de Hal Jordan. Essa amarra dá urgência à entrada de Stewart e legitima a pergunta que domina o fandom: o herói foi convocado ou incriminado?
Outro upgrade visível está na escala. Em vez do beco escuro filmado em Vancouver, o DCU escolheu uma estação de tratamento de água desativada em Detroit, com corredores metálicos que lembram Blade Runner. O diretor Chris Mundy usa a tubulação para criar reflexos múltiplos do feixe verde, evocando o tema da duplicidade — quem usa a energia da Vontade pode ser tanto salvador quanto arma.
Decisão veio após fiasco de “Supergirl” e pressiona executivos
Nos bastidores, o gesto tem leitura estratégica. De acordo com interlocutores próximos à sala de roteiristas, o cancelamento prematuro da sequência de “Supergirl” virou alerta dentro da Warner: a adesão de fãs veteranos não pode ser subestimada. Daí a aposta duplicada em “Lanterns”, já apontada em reportagem sobre a série virar prova de fogo do novo DCU. A refilmagem do momento mais pedido do Arrowverse atua como bandeira branca para esse público órfão.
Funcionou? Em 12 horas, o hashtag #FinallyGreen invadiu o X (ex-Twitter) e a audiência inicial superou o episódio anterior em 18%, segundo dados preliminares de agregadores de smart-TV. Se o ritmo continuar, “Lanterns” pode puxar a curva de recuperação que a divisão de cinema perdeu, especialmente após o tropeço da heroína kriptoniana.
Novo DCU começa a negociar, não apagar, o próprio passado
O recado embutido vai além de fan-service. Ao validar a existência de um John Stewart que já viu o anel no Arrowverse, o roteiro sinaliza que o DCU pode trabalhar com camadas de multiverso sem repetir o barulho promocional de “The Flash”. É um flerte silencioso, mas calculado: abraçar o que foi bem-recebido e descartar o resto — movimento que ecoa a troca de vilão em “Superman 2” e a virada horror no design de Clayface.
Se “Lanterns” bancar essa costura até o fim da temporada, Gunn terá em mãos um manual prático de como aproveitar material legado sem travar o reboot. Caso contrário, a cena épica de agora corre o risco de sofrer o mesmo destino da CW: virar promessa quebrada. O relógio da boa vontade dos fãs, pelo visto, já começou a contar.

