O relógio quase zerou, mas a comunidade salvou o set inspirado nos kodamas — os espíritos da floresta de “Princesa Mononoke” — e garantiu 41 dias extras para que o projeto alcance a meta de 10 mil apoios no LEGO Ideas. A prorrogação foi confirmada na noite de terça (14) depois que o modelo ultrapassou o limiar de 5 000 votantes, estágio que renova o prazo dentro da plataforma.
À primeira vista parece só mais uma campanha de fãs, mas o alerta acendeu na sede dinamarquesa: trata-se do primeiro design ligado diretamente ao Studio Ghibli a flertar seriamente com a fase de revisão oficial. Se chegar lá, a peça confronta um tabu histórico da LEGO — o contrato exclusivo com a Disney para animações ocidentais — justamente no momento em que Hayao Miyazaki voltou ao Oscar.
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O algoritmo do LEGO Ideas só concede tempo extra a projetos que demonstram tração. Estatisticamente, menos de 8 % dos envios alcançam 5 000 apoios; o set de “Mononoke” fez isso em 104 dias, ritmo superior ao de sucessos aprovados como “Seinfeld” e “WALL-E”. A métrica interna que pesa no comitê não é apenas o volume bruto, mas a curva de crescimento: a cada 10 horas, 19 novos usuários votaram no projeto desde o fim de abril.
Outro diferencial que chamou atenção dos executivos é a neutralização de barreiras regionais. Segundo dados de geolocalização divulgados na página oficial do designer, 42 % dos cliques vieram da América Latina — percentual fora da curva para propostas baseadas em animações japonesas, que costumam concentrar apoios nos Estados Unidos e Sudeste Asiático.
O impasse do licenciamento e o plano B da comunidade
Até hoje, nenhuma linha oficial da LEGO abraçou o catálogo Ghibli. O motivo principal é a sobreposição de distribuição com a Disney no Ocidente, o que renderia conflitos de marca em prateleira. O set dos kodamas dribla parte do problema ao focar em criaturas florestais genéricas, evitando o uso de personagens centrais como San ou Ashitaka. Na prática, oferece à LEGO uma rota de menor atrito jurídico para testar a demanda real.
A estratégia lembra a manobra que transformou Hello Kitty em “monstrinho” nos games: mexa no imaginário sem acionar as cláusulas mais caras do contrato. Caso a marca dinamarquesa aprove o set, abre-se precedente para futuras negociações diretas com o Studio Ghibli, que mantém total controle sobre merchandising — basta lembrar que “Meu Amigo Totoro” ficou trinta anos sem action figures licenciadas fora do Japão.
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A equação externa ficou favorável. “O Menino e a Garça” deu a Miyazaki a estatueta de Melhor Animação, reacendendo a vitrine global do estúdio. Em julho, “Princesa Mononoke” completa 27 anos, data redonda nos círculos de colecionadores porque coincide com a “idade de nostalgia” de quem viu o filme na infância. E, paralelamente, a LEGO busca reforçar a linha de cultura pop japonesa para não perder espaço nos nichos que a Bandai domina — vide o apagão de pré-venda do maior SD Gundam da história.
Se o set alcançar o review até o fim de junho, a decisão sairá no primeiro trimestre de 2025. Não é garantia de aprovação, mas o simples fato de obrigar a LEGO a discutir Ghibli em mesa executiva já muda o jogo. Para os fãs, cada apoio agora vale por dois: empurra o projeto adiante e sinaliza que há mercado pronto para muito além da bolha Disney-Pixar.

