Nem bastou enquadrar a primeira cena: no set recém-montado em Praga, o protagonista da versão live-action de Solo Leveling caiu em prantos depois de ouvir o “corta”. O motivo, segundo colegas de produção, não foi cansaço ou método de atuação — foi a convicção de que a adaptação realista está “maior do que o próprio anime”.
O choro inesperado levou o diretor Park Sung-hoon a interromper a filmagem por dez minutos, tempo suficiente para acender o alerta nos bastidores: o webtoon que virou fenômeno global quer, agora, reescrever o manual de adaptações coreanas e atropelar a versão animada recém-exibida pela A-1 Pictures.
Orçamento coreano, set europeu e câmera 360°: onde a série pretende ganhar o jogo
Começa pelo dinheiro. A Anklet Studios reservou cerca de US$ 28 milhões para a primeira temporada — valor que ultrapassa em 40% o caixa inicial do anime. Parte foi destinada a recriar masmorras em um galpão de 12 mil m², com paredes modulares que recebem projeção em tempo real no estilo “The Mandalorian”. O resto cobre licenças de armação de cabos de aço importados da China, usados para coreografar saltos impossíveis sem recorrer a CG pesado.
Se a animação foi criticada por acelerar arcos inteiros, a série física fez o caminho inverso: Park filmará a batalha de Jeju em três blocos narrativos diferentes, cada um com diretor de fotografia próprio. O recurso imita o modelo de produção escalonada de grandes franquias — estratégia parecida com a que a Toei começou a testar em One Piece, conforme apontado no artigo “Episódio 1171 de One Piece vira termômetro da nova estratégia global da Toei”.
Choradeira de bastidor revela a aposta emocional do roteiro revisado
O script passou por quatro rodadas de rewrites conduzidas pelo próprio Chugong, autor do webtoon, a pedido da Netflix. A principal mudança é a humanização extrema de Sung Jin-woo: antes da primeira dungeon, veremos flashbacks da hipoteca atrasada da família e a conta exata que ele deve ao Sistema Nacional de Saúde coreano. Foi essa cena doméstica, filmada em luz natural e sem maquiagem ninja, que fez o ator — nome ainda sob sigilo contratual — desabar.
Entre os diálogos inéditos, há uma linha que já virou mantra interno: “Meu nível não sobe, minha dívida sim”. A frase não existe no anime, mas nasce para ancorar a série na crise econômica global, conectando o drama de rankings de caçadores ao bolso do espectador. O discurso de proximidade com a realidade, admitem produtores, é a carta que pode fazer a obra “correr círculos” em volta da animação.
Disputa de streaming indica virada para os webtoons fora da Ásia
A Netflix tem prioridade na exibição no Ocidente, mas a Amazon entrou na mesa oferecendo espaço na janela FAST do Prime Video — algo inédito para um título coreano. A manobra tenta evitar o que aconteceu com Demon Slayer, que perdeu tração quando mudou de plataforma, e prepara terreno para uma nova leva de webtoons live-action já licenciados por Kakao Entertainment.
Na prática, a briga endossa um movimento mais amplo: conglomerados enxergam nas histórias curtas e seriadas dos webtoons o mesmo potencial de maratona que sagas gigantes como One Piece — tema que dominou discussões recentes sobre métricas de “binge watching”, como se viu no estudo de engajamento em “Marineford domina a Netflix”. Se Solo Leveling acertar o alvo, não será apenas a animação que ficará pequena; será todo o modelo de primeiro-lançar-em-anime que sairá abalado.
A próxima gravação de grande escala ocorre daqui a duas semanas, em uma estação de metrô desativada de Budapeste. E, se depender do que já se comenta nos bastidores, os estágios do jogo deixaram de ser nível de personagem: viraram régua para medir a própria indústria.
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